Agripino. 31 de agosto.

OPINIÃO - Inocêncio Erbella

Data 31/08/2021
Horário 07:00

A saudade e o consolo cristão estão batendo juntos. Neste dia, família, amigos e companheiros (sem distinção: operários, professores, diretores, empresários e políticos) se reuniam para comemorar mais um aniversário do saudoso Agripino de Oliveira Lima Filho, o mais notável líder da região, nos últimos tempos. Foi meu amigo, na real e verdadeira acepção da palavra. Entre nós sempre prevaleceu a reciprocidade, condição indispensável para quem cultua o sentimento cristão da amizade. Reciprocidade no respeito à maneira de viver e pensar de cada um. Reciprocidade no estar presente nas necessidades temporárias de cada um, com ajuda mútua. Reciprocidade no reconhecimento do valor de cada um, oriundo do dom recebido de Deus Pai Todo Poderoso. 
Amizade que nasceu de uma luz divina derramada sobre nós, em um certo dia da década de 60, quando, ele professor e eu prefeito de Presidente Venceslau, nos encontramos na sede do Centro do Professorado Paulista, em Presidente Prudente. Conversamos bastante sobre educação e sentimos que tínhamos em comum as mesmas esperanças sobre esse mais importante pré-requisito para o desenvolvimento de qualquer aglomeração humana. E essa amizade foi crescendo, dia a dia, até se tornar eterna. Ele já partiu desta terra, está no reino dos céus, onde, se Deus quiser, o encontrarei um dia. Nunca foi lembrado e festejado como nestes tempos. 
O hospital, que construiu em Presidente Prudente, hoje, Hospital Regional, tem sido o maior suporte, no campo da saúde pública, para receber e cuidar dos infectados com o coronavírus, na região, ao lado da Santa Casa de Presidente Venceslau. Profissionais da Saúde envolvidos no atendimento dos doentes, na maioria, são formados na Unoeste, a maior Universidade do Oeste Paulista, produto do trabalho dele e de Dona Ana. Não vou ficar aqui numerando suas obras, nem sua atuação na área política. Vou apenas repetir: foi o mais importante cidadão da região, nos últimos tempos.  
Deus me concedeu a graça de vê-lo vitorioso em movimentos memoráveis que, através dos tempos, ele conduziu nesta terra, pois convivi bastante com ele. Frequentamos juntos, por cinco anos, a Faculdade de Direito da Instituição Toledo de Ensino. Aí conheci o Agripino ambicioso, sonhador e consciente de que quem bate vê as portas se abrirem. Perseverante e trabalhador, além de bom aluno, se ocupava – ganharás o pão de cada dia com o suor do seu rosto – com a venda de livros para os colegas, sempre ao lado do seu companheiro inseparável, Altamiro Belo Galindo. 
Revivo, agora, um episódio, entre 1968/70. Através de uma ligação telefônica, ele me avisou que estava enviando 100 coleções do dicionário Formar e esperava que eu as vendesse em Presidente Venceslau. Pedido de amigo é ordem. Todas foram vendidas. No acerto de contas, ofereceu-me a metade da sua comissão. Recusei. “Não sou vendedor de livros, apenas servi a um bom amigo”, observei na ocasião. Mais tarde, colhi a reciprocidade. 
Em 1971, mais um episódio nos colocou juntos. Ele e Dona Ana criaram a Apec e o Agripino viajava constantemente para Brasília a fim de conseguir, no Conselho Federal de Educação, a devida autorização para instalar a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Presidente Prudente, enquanto, na mesma época, eu lutava para instalar uma congênere, pela Instituição Toledo de Ensino, em Presidente Venceslau. Em Brasília, nos hospedávamos no mesmo hotel e, então, mais uma vez, estávamos juntos. Tive, então, a possibilidade de conhecer o Agripino que tinha a consciência de que qualquer pessoa para alcançar seus objetivos nesta vida, precisa fazer a sua parte. E ele a fazia com energia invulgar. Lutava como um gigante. Derrubava obstáculos, ultrapassava barreiras, e, custasse o que custasse, nada para ele tinha caráter impeditivo, alcançava suas aspirações. Não perdia tempo. Acordava cedo, procurava os conselheiros e apelava para a aprovação do seu objetivo, a criação da primeira faculdade da sua instituição, em Presidente Prudente. E, como não poderia deixar de ser, atingiu suas pretensões. 
A faculdade foi criada. E dias depois a de Presidente Venceslau. Vencemos juntos. Mas, para ele essa vitória era apenas a primeira. Aspirava muito mais e quando queria nada o demovia das suas pretensões. Continuou indo a Brasília. Não se cansava de dialogar e agradar conselheiros. Vieram novas faculdades. A Apec foi crescendo. Dona Ana administrando em Presidente Prudente, ele batalhando em Brasília. E as faculdades foram surgindo e, mais tarde, unificadas na Universidade do Oeste Paulista - a Unoeste - o maior centro de educação do oeste paulista. Resultado do labor, da coragem, da grande visão do futuro, do maior empresário, no campo da educação, da nossa região Sorocabana. 
Já idosos, aposentados, levados pelo dedicado e inigualável companheiro do Agripino, Ismael Silva, íamos quase todos os sábados a Presidente Epitácio – Dificilmente se passava um, sem que eles não me apanhassem em casa para saborearmos uma gostosa peixada na Joia Ribeirinha, quando então conversávamos muito sobre nossas empreitadas no passado. Essas, fossem onde fossem, eram interrompidas por pessoas que, o reconhecendo, iam lhe abraçar e agradecer algum bem recebido: “Ah se não fosse o Senhor, meu filho não seria médico”. 



Tenho grande orgulho de ter, por convite do Agripino, trabalhado na Apec. Estive diretor, por algum tempo, da Faculdade de Direito. Morei com a família no Campus II, num apartamento do prédio onde hoje está a Faculdade de Hotelaria. Na época, então prefeito de Presidente Prudente, queria, na verdade, outra coisa e realizou suas intenções em dois tempos: dias depois de me por como diretor, chamou-me na Prefeitura e com determinação adiantou-me: “Acabei de nomeá-lo para a Chefia do meu Gabinete. A faculdade funciona só à noite e durante o dia você vai exercer essas funções; preciso, no momento, de alguém como muita experiência política e habilidoso como você”. 
Depois de ter exercido cargos importantes na administração estadual e de estar procurando uma vida mais sossegada, não tive forças para negar essa imposição do meu amigo. E esse, não posso negar, transformou-se num dos períodos mais gratificantes da minha vida. Tanto espiritualmente como materialmente. Espiritualmente, porque Deus ofertou-me a graça de conviver, mais de perto, com uma pessoa extraordinária e crente na doutrina cristã. A cruz que carregava no peito não era uma mistificação, mas o desejo de mostrar a todos que, antes de mais nada, tinha uma missão para cumprir na Terra, a de lutar, sem medo e sem ódio, pelo bem comum: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei”. Dotado de uma coragem invulgar, fazia dessa cruz a arma para ultrapassar barreiras, vencer obstáculos e cumprir seu plano de vida.  
Para mim, volto a dizer, foi um período gratificante. Trabalhava muito, mas ganhava bastante. O mais importante: morando no “Campus II” conheci a grandeza d’alma do Agripino. Entre tantas coisas benéficas, montou ali uma enorme carpintaria, onde além dos móveis da universidade, fabricava bercinhos e mais bercinhos para doar às famílias necessitadas, além de móveis para seus operários, para quem, também, construiu diversas casas de moradia. As cestas básicas eram doadas por uma fundação da família. Um dia me levou para conhecer um apartamento enorme, defronte do Campus I, onde se abrigavam diversos jovens que vinham de Mato Grosso, para estudar em Presidente Prudente. 
Cito essas medidas, que muitos dirão paternalistas, porque foram postas em prática por um cidadão que, ao mesmo tempo, se tornava o maior empresário da região, no campo da educação. Às vezes, era rude nas suas reações, principalmente em relação àqueles que não pensavam como ele. Mas, não guardava ódio, sabia perdoar e tinha boas amizades entre adversários. O Agripino já fora vereador, vice-prefeito e prefeito de Presidente Prudente e eu vereador, vice-prefeito e prefeito de Presidente Venceslau, em três gestões e, em 1986, fomos candidatos pelo PFL, ele a deputado federal e eu a estadual. Ele se elegeu e eu fiquei na 1ª suplência. É claro que, nesses quatro anos, nos aproximamos ainda mais. 
Notadamente, quando ele pretendeu se candidatar a governador do Estado. Fazendo parte de uma equipe admirável, fizemos uma campanha excepcional, só perdendo a convenção por muito pouco, pois, tivemos a maioria dos delegados partidários do interior, mas não tivemos votos entre os deputados federais e outros participantes especiais. O certo é que a amizade crescia a cada dia. E daí veio o convite para trabalhar na Unoeste, como já relatei acima e, nela, em contrapartida, se formaram membros da minha família, com exceção do Ernane e do Marcelo. E assim, com reciprocidade e respeito, a nossa amizade foi se tornando eterna. Após nossos afastamentos da vida profissional e política, nos tornarmos ainda mais próximos. Repito. Quase todos os sábados o Agripino passava por minha casa e íamos para Presidente Epitácio, comer uma peixada e relembrar com saudade o nosso passado. 
Fui seu companheiro, até o dia da sua morte, e me orgulho de ter merecido sua amizade. Hoje, nestes momentos de crise, ele faz muita falta e o povo sente saudade do homem, que, ostentando, sempre, uma cruz no peito, edificou também uma maravilhosa igreja e, para chegar a ela, a partir do portão monumental, instalou cada momento da “via crucis” percorrida por Nosso Senhor Jesus Cristo. Transmitia sempre que a vida temporária, aqui nesta Terra, é reconhecer os nossos pecados, procurar corrigi-los e a única arma, para nós cristãos e pecadores, nos redimir deles, é carregar a cruz, que simboliza o martírio vivido por aquele que por vontade do Pai Todo Poderoso veio à Terra para deixar ensinado o melhor caminho: Amai-vos uns aos outros como Vos amei. 
Com ele, também aprendi, e nunca deixei de proclamar, não ser preciso sermos unívocos, mas, sim, acatadores do “livre arbítrio”, a fim de que, sem medo, sem ódio, sem violência, sem tibieza, defendamos nossas ideias e respeitemos a dos nossos semelhantes. Às vezes, o Agripino era rude, oralmente, na defesa das suas, porém, sabia redimir-se. Também, como todo ser humano, teve seus pecados: a perfeição não é atributo dos homens, mas, apenas, da divindade. Contudo, uma coisa é certa: não há fé, sem obra e o Agripino foi exemplo desse princípio cristão. Esta é uma data que repercute fortemente saudade do grande líder. Muita saudade minha, da minha família e, com certeza, saudade do povo da nossa região.

Inocêncio Erbella é ex-prefeito de Presidente Venceslau, ex-deputado estadual e ex-secretário de Esportes e Turismo do Estado de São Paulo
 

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