Ah, vai tomar banho de Ypê!

Roberto Mancuzo

CRÔNICA - Roberto Mancuzo

Data 12/05/2026
Horário 06:00

A Ypê parou. Não por vontade própria, mas por risco real e eles sabem disso. A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) encontrou falhas na produção de detergentes, lava-roupas e desinfetantes e pede cautela à população, mas em vez de preocupação, o que se viu? Pessoas tomando banho com o Ypê. Pessoas tomando o detergente Ypê! Tomando! Você entende isso?
Depois que a informação da Anvisa se espalhou, vimos nas redes um coral ensaiado: "perseguição", "caça às bruxas", "é o governo querendo acabar com uma empresa patriota".
Gente, é detergente! 
Ou melhor: é um produto com suspeita de contaminação. Não é obra do sindicato do mal ou dos cavaleiros do apocalipse. É fiscalização sanitária, que aliás, todo mundo quer quando compra um produto para dar ao próprio filho e nunca esteve em dúvida até esta briga incoerente e idiota entre esquerda e direita tomar conta da vida dos brasileiros.
E aí que está: estou para dizer que este episódio é só mais um sintoma de algo maior porque toda vez que vejo algo parecido, alguns fantasmas voltam a me assombrar. 
Você se lembra da pandemia e dos "tratamentos precoces"? Do SUS (Sistema Único de Saúde) sendo atacado por quem corria para ele quando o particular lotava? Dos antivax, que recusam a vacina com eficácia comprovada, mas abraçam com gosto um remédio para emagrecer comprado no Paraguai, de procedência duvidosa, que óbvio não passa por nenhuma Anvisa? Nem de lá e nem daqui. 
O que está acontecendo com este povo, gente?
Estamos diante de um grave problema de narrativa no lugar de evidência. É achar que sentir é mais importante que saber. É transformar órgão técnico em inimigo, fiscalização em perseguição, e advertência em alarmismo.
E o pior: esses equívocos não são inofensivos. Não dá simplesmente para dizer aos que tomam banho de detergente "que colham suas próprias tempestades", porque nem todo mundo que acredita nessas narrativas tem condições de checar dados. 
E pior ainda são as crianças, que dependem das decisões dos adultos, mesmo quando são particularmente erradas. Elas tomam whey protein na mamadeira porque os pais seguem a influencer maluca que faz isso com os filhos; ficam sem a vacina porque alguém sonhou que vem da China, do Afeganistão, sei lá de onde. Enfim, os mais frágeis são sempre mais afetados.
Quer saber? A Ypê vai consertar os problemas e vender detergente de novo. A Anvisa vai continuar e se o governo mudar, ela passará a ser mais santa que a capela do Santo Sepulcro. Só nós mesmo é que continuaremos à mercê da mais nova maluquice que irá surgir, fruto da briga insana entre esquerda e direita. 
Ah, quer saber vocês que caem nestas conversas? Vão tomar banho de Ypê!

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