Além do limite físico: maratonistas superam 326 km na raça e na fé rumo ao Santuário de Aparecida

SINOMAR CALMONA

Em seis dias de extrema provação, prudentino Gabriel Gigante e os atletas Adriano Cobaia, Everaldo Teixeira, Renan Cola e Anderson Lima enfrentam montanhas, chuva e frio de 1°C na maior jornada de suas vidas

COLUNA - Sinomar

Data 05/07/2026
Horário 06:15
O maratonista prudentino, Gabriel Gigante, e os amigos Adriano Cobaia, Everaldo Teixeira, Renan Cola e Anderson Lima (do perfil @correndosimples) registram a imensidão da Serra da Mantiqueira, em Minas Gerais
O maratonista prudentino, Gabriel Gigante, e os amigos Adriano Cobaia, Everaldo Teixeira, Renan Cola e Anderson Lima (do perfil @correndosimples) registram a imensidão da Serra da Mantiqueira, em Minas Gerais

Madrugada fria de 15 de junho. Enquanto a maioria das pessoas ainda dormia, cinco homens ajustavam as mochilas nas costas em Águas da Prata (SP). Nos olhos de Gabriel Gigante, Adriano Cobaia, Everaldo Teixeira, Renan Cesar Ribeiro Cola e Anderson Lima — este último a mente por trás do prestigiado perfil "Correndo Simples" —, havia um misto de respeito e determinação. Diante deles, desenhava-se o icônico Caminho da Fé: uma rota de 326 quilômetros de estradas rurais, trilhas sinuosas e montanhas imponentes que separam o ponto de partida do Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida.
Para aquele grupo de maratonistas experientes, acostumados com o asfalto plano e o relógio cronometrado, o desafio que começava ali era de outra natureza. Não se tratava de buscar o melhor tempo ou um recorde pessoal, mas de iniciar uma jornada onde cada quilômetro corrido ou caminhado seria uma conversa íntima com os próprios limites, com a natureza e com a espiritualidade.

A ANATOMIA DO SACRIFÍCIO: O DESAFIO DAS GRANDES SERRAS
O Caminho da Fé não perdoa o corpo, mas molda o espírito. Logo nos primeiros dias, a mítica subida da Ponte de Pedras e a temida Serra dos Limas cobraram o preço em cansaço. As pernas acumulavam a fadiga de etapas que frequentemente ultrapassavam os 50 quilômetros diários, sob o castigo de chuvas intermitentes e baixas temperaturas que insistiam em testar a resiliência do grupo.
Passo a passo, o asfalto deu lugar à terra batida e às pedras soltas de Tocos do Moji, do Pântano dos Teodoros e da Serra do Caçador. No ponto alto da Porteira do Céu, o silêncio do bosque só era quebrado pela respiração forte dos atletas. O ápice da provação física atendeu pelo nome de Serra da Luminosa — um paredão íngreme que exige tanto da mente quanto dos músculos, mas que recompensou os peregrinos com a imensidão da Janela do Céu, de onde puderam contemplar, do alto da Serra da Mantiqueira, a grandiosidade da criação. Ao atingirem a marca simbólica do quilômetro 163, perto de Consolação, o corpo exausto lembrava que metade do sonho já havia sido pavimentada.

A CORRENTE DA AMIZADE: O COMBUSTÍVEL QUE VEM DO ASFALTO
Dizem que o Caminho é solitário, mas a jornada deste grupo provou o contrário. Nos momentos em que o frio apertava e as bolhas nos pés ameaçavam ditar o ritmo, a solidariedade se fez presente. Próximo a Consolação, Cida e Irajá viajaram centenas de quilômetros de Brusque (SC) apenas para dar um abraço e caminhar alguns metros com os amigos. Mais adiante, em Paraisópolis, Hugo Farias e Paulo Brito saíram de Americana (SP) para ditar o passo de corrida com o grupo.
Nos dias mais críticos, a logística impecável de Fabiano e Alicate garantia o suporte de água e suplementação necessário para manter o motor daqueles maratonistas funcionando. Na reta final, a energia se renovou por completo: familiares e amigos prudentinos se juntaram ao bando nos quilômetros derradeiros, transformando o cansaço em lágrimas de entusiasmo.

1°C E O TOPO DO MUNDO: A CHEGADA TRIUNFAL NOS BRAÇOS DA MÃE
Os dois últimos dias reservaram o cenário mais dramático da travessia. Cruzando a região de Campos do Jordão, o termômetro despencou para congelantes 1°C. Sob uma neblina densa, o grupo iniciou a jornada ainda na escuridão da madrugada, desafiando a altimetria brutal até atingir o ponto mais alto de todo o circuito: colossais 1.965 metros de altitude. Dali em diante, a descida em direção ao Vale do Paraíba era o último obstáculo.
No dia 20 de junho, após cobrirem inacreditáveis 78 quilômetros de corrida e caminhada em um único dia, os relógios marcavam 18h30 quando as cúpulas douradas do Santuário Nacional de Aparecida surgiram no horizonte. Tomados por uma emoção incontrolável, os cinco maratonistas se ajoelharam diante da Santa: a missão estava cumprida. E como se 326 km não fossem suficientes para aqueles gigantes, parte do grupo ainda encontrou forças, na mesma noite, para correr mais 9 km na tradicional Corrida da Mãe Aparecida, carimbando com medalhas uma jornada épica que transcendeu o esporte e se eternizou na alma.

A JORNADA EM NÚMEROS
•    326 quilômetros totais de superação.
•    6 dias consecutivos alternando corrida e caminhada.
•    78 quilômetros vencidos apenas no último e decisivo dia.
•    1.965 metros de altitude máxima na crista da montanha.
•    1°C de temperatura mínima enfrentada na madrugada.
•    +9 km extras completados na Corrida da Mãe Aparecida após a chegada.


MOMENTO ICÔNICO DIANTE DA FAMOSA E HISTÓRICA PORTEIRA DO MENINO DA PORTEIRA, EM OURO FINO (MG). MAIS DO QUE UM PONTO TURÍSTICO OBRIGATÓRIO NA ROTA DO CAMINHO DA FÉ, MONUMENTO SERVIU COMO UMA INJEÇÃO DE ENERGIA, HISTÓRIA E CULTURA CAIPIRA PARA O GRUPO RECARREGAR AS FORÇAS ANTES DE SEGUIR VIAGEM RUMO AOS 326 KM DE SUPERAÇÃO ATÉ O SANTUÁRIO DE APARECIDA


REGISTRADOS DE COSTAS ENQUANTO VENCIAM UMA DAS TRILHAS MAIS ÍNGREMES E EXIGENTES NAS MONTANHAS DE MINAS GERAIS, MARATONISTAS DÃO A EXATA DIMENSÃO DO ESFORÇO FÍSICO EXIGIDO PELO CAMINHO DA FÉ


DIANTE DA ALTIMETRIA BRUTAL DA SERRA DA MANTIQUEIRA, CADA PASSO PARA CIMA ERA UMA VITÓRIA CONTRA O CANSAÇO E UMA DEMONSTRAÇÃO DE PURA RESILIÊNCIA NA JORNADA RUMO À APARECIDA. RUMO AO TOPO!


OS MARATONISTAS PRUDENTINOS GANHARAM UM REFORÇO DE PESO HISTÓRICO EM UM DOS TRECHOS DA CAMINHADA: O ATLETA HUGO FARIAS, RECORDISTA MUNDIAL RECONHECIDO POR SUA FAÇANHA MONUMENTAL DE CORRER 365 MARATONAS EM 365 DIAS.


EM UM ABRAÇO QUE TRADUZ O CANSAÇO TRANSFORMADO EM FORÇA, MARATONISTAS DEMONSTRAM QUE NENHUMA MONTANHA É ALTA DEMAIS QUANDO SE TEM AMIGOS DIVIDINDO O MESMO PROPÓSITO. UMA JORNADA INESQUECÍVEL DE CUMPLICIDADE E SUPERAÇÃO RUMO AOS BRAÇOS DA MÃE APARECIDA!


DIANTE DE UM DOS LINDOS E CRISTALINOS RIACHOS QUE CORTAM AS TRILHAS DO CAMINHO DA FÉ, MARATONISTAS ENCONTRAM O CENÁRIO PERFEITO PARA UM MERECIDO MOMENTO DE DESCANSO E CONTEMPLAÇÃO

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