Ato de escrever

OPINIÃO - Raul Borges Guimarães

Data 22/08/2021
Horário 04:30

Às vezes eu me pergunto sobre o objetivo de escrever e de sua relação com a leitura. O ato de ler é uma espécie de escrita mental, de reelaboração do texto lido de maneira que este faça sentido para eu mesmo. No caminho inverso, o ato de escrever é a impressão no papel da minha leitura do mundo. Sempre tive professores especiais que me convidaram a percorrer este rico processo de descobertas!
Uma atividade de leitura marcante foi aquela organizada pela prof.ª Otília para aguçar a curiosidade da nossa turma do 4º ano primário. Ela desmontou nossos exemplares do livro por capítulos que eram entregues na medida que avançava a leitura. Eu não via a hora da aula da semana seguinte para acompanhar Pedrinho em suas viagens pelo mundo em cima de sua arraia voadora! Ou as aulas de português na 6ª série ginasial, quando o prof. Rui nos ensinava a ler poemas, ressaltando seus ritmos e sonoridades... 
Apesar do fascínio por aqueles desafios, eu não tinha como não achar cômica a performance teatral do prof. Rui ao interpretar o famoso poema de Manuel Bandeira: “Café com pão/café com pão/café com pão.....Virgem Maria que foi isto maquinista?” Enquanto eu me esforçava para não cair na gargalhada, esqueci que estava em sala de aula até ser surpreendido pelo professor na minha frente, muito bravo com a minha impertinência! 
E assim foram ocorrendo muitas experiências inesquecíveis... No período do colegial, as aulas de leitura e escrita eram divididas em três disciplinas: gramática, literatura e redação. Você pode achar estranho, mas eu adorava as aulas de gramática, especialmente as de morfologia e sintaxe do prof. Zé Luis. Incrível como ele tornava divertida a discussão das estruturas frasais e das funções que as palavras desempenham em uma oração. 
Nas aulas de literatura do prof. Aguinaldo, eu continuava a me envolver com a leitura de diferentes gêneros literários, com destaque para autores modernistas, transformando-me em amigo imaginário de Mário e Oswald na Semana de Arte Moderna de 1922. Por fim, as aulas de redação do prof. Gilson Rampazzo me ensinaram a lidar com o tempo da escrita. Sei que era preciso comentar as redações da aula anterior ou detalhar a orientação da proposta daquela semana, mas ele nunca tinha pressa e nos reservava pouco tempo para elaborar o texto exigido. 
Foi daquela urgência do ato criativo que comecei a percorrer os labirintos entre as palavras e suas articulações semânticas. O verbo tinha de ser forjado do suor ou do barro, moldando as palavras antes de serem ditas. Cidades, mares, povo, rio.... “só uma palavra me devora, aquela que meu coração não diz”!

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