Ausências e suas novas configurações

A dor da perda não se explica. Só quem sente. São múltiplas formas em que as pessoas se apegam para camuflar o sofrimento. Ela pode ser desencadeada pela morte real de alguém que muito amamos. Também ser a “morte” de alguém que continua vivo, em decorrência de um divórcio. Representar a perda de um posto, cargo ou emprego em uma empresa. Os vazios podem se originar por uma infinidade de fatos ou acontecimentos variáveis no nosso dia a dia. 
O luto não pode ser somente restrito à perda real de alguém que muito amamos. Perdas e ganhos fazem parte do nosso repertório humano enquanto houver vida. Deixamos de ser bebês quando ganhamos a infância. Perdemos a infância na travessia da adolescência. Perdemos a adolescência para ganhar maturidade. Perdemos o ambiente perfeito do útero materno para ganhar a vida do universo exterior, iniciando toda a trajetória do aprender com as experiências. 
Nesse vai e vem de ganhos e perdas, alguns têm mais recursos outros menos. Alguns dificilmente elaboram, outros jamais. Uns passam a organizar sua vida encapsulando o que perdeu, entrando no casulo. E passam a não dar mais vida ao que realmente está vigorando e assim seguem a vida, sem vida, dando vida aos seus mortos. O que fazemos então com nossos vazios originados por uma infinidade de fatores? Vamos buscando formas para o preenchimento. 
Estamos vivendo uma era tecnológica aonde as redes sociais vêm sendo protagonista. Buscamos dialogar com pessoas de outros países, trocamos afeto, carícias autoeróticas com uma tela ao meio, onde alguém do outro lado aprecia e inflado regozija. Há cada vez mais dificuldade de se construir intimidade. As novas configurações para simbolizar os vazios ocasionados pelas perdas estão invadindo nosso universo e trazendo grande destruição à família.  
É preciso buscar ajuda especializada quando não conseguimos tolerar esses vazios, lutos e ausências. “Maria tinha três filhos. Certo dia, seu filho mais novo foi jogar futebol e foi atropelado. Morreu”. Maria não elaborou esse luto. O que vivo estava para Maria, considerava morto. Havia perdido o interesse por tudo. Maria encontra hoje uma forma singular para preencher o vazio desse luto. Recusa tratamento especializado. Hoje carente e desamparada, tornou-se uma acumuladora. Passa o dia garimpando objetos jogados, descartados, sem importância e leva para sua casa. Simbolicamente, “sua casa interna, está psiquicamente lotada de vazios em que ela quer preencher, re-significando, o filho perdido”. Em um grande desamparo e carência, no luto patológico, ela encontra no acúmulo de objetos, o afeto perdido, tentando “substituir” seu filho. É um desamparo tão grande que não permite um lugar vazio em sua “casa interna” e sua casa real. Então, de forma ilusória acumula, preenchendo os seus “vazios”. São as novas configurações que encontramos no caminho da dor de uma perda.
 

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