Bejo. Foi o nome que Jairo deu para a canoa. Eu imagino que tenha sido alguma declaração de amor. Não sei se ao mar, ou à esposa, ou à vida. Enfim, sei que não se mandam beijos à toa e ainda mais um “bejo” assim, com tanta força semântica.
Jairo é pescador desde sempre. Homem do mar que aprendeu cedo a tecer redes e a correr dos croques que o pai dava enquanto terminava o trabalho na areia, após longas horas ao sol. Entre as canoas, ele corria e brincava até que um dia deixou de correr e brincar para viver e trabalhar.
Sempre soube bem do vento, das marés, da força e do imprevisível do mar. Passou apuros, claro, mas nada que o forçasse sequer um dia a pensar que não queria mais deixar de sentir a brisa fresca e as gotinhas de água que pululam nos braços enquanto a canoa sobe e desce conforme o requinte das ondas.
O bejo já foi muito valente. Trouxe muito peixe para a praia, alimentou famílias. A de Jairo, principalmente. Tentaram comprá-lo um dia, mas o negócio furou porque não chegaram em um acordo. Não financeiro, mas por conta da emoção. Quem consegue por preço justo naquilo que dá sustento a um homem? Bejo ficou onde estava.
Aliás, ainda hoje, se alguém passar pela Rua Copacabana, caminho do mar, vai ver o bejo quietinho em uma garagem. Sim, na garagem do Jairo não há carros e sim uma canoa. Está ali ao lado do dono que hoje deixou o ofício da pesca artesanal para cuidar da esposa. A vida é imprevisível sim, mas o homem nem tanto.
Quando se trata de amor, a história de Jairo mostra bem que é sempre um pelo outro.
Às vezes, encontro com ele no caminho. Trocamos meia dúzia de palavras e logo ele ressalta que precisa cuidar dela. E eu digo: “Vai lá, Jairo, um abraço”.
Daí eu falo só comigo: “Mostra para todos nós que a vida é igual ao mar: vai e vem, traz e recolhe, fecha e abre, mas nunca deixa de ser o que é, nunca perde o sabor de sal e o eterno chamado para sejamos gentis uns com os outros.”
Bejo!