Bem-te-vi

OPINIÃO - Thiago Granja Belieiro

Data 21/03/2026
Horário 04:30

O bem-te-vi, assíduo visitante de nosso quintal, chegou afoito naquele dia. Deu bicadinhas na janela, com o intuito de nos lembrar o compromisso tácito, há tempos assumido, no qual cederíamos a ele parcos alimentos, frutas e cerais, em troca, aparentemente, de sua presença elegante e seu canto, lírico, agudo e assertivo. Havíamos falhado nos últimos dias, em nome de compromissos variados, deixando-o à mingua. O atendi, servindo-lhe uma banana, parcialmente descascada, que vinha comendo com parcimônia, apesar da ansiedade inicial. 
Estávamos separados, o bem-te-vi e eu, pelo vidro da janela da cozinha, de modo que continuei meus afazeres enquanto ele comia. Um pouco depois, percebi que ele olhava para mim, com desmedida atenção, acompanhando meus movimentos pela cozinha. Parecia curioso e entretido. Não lhe dei a atenção devida, por esse motivo, deu um pio mais alto do que de costume, ao mesmo tempo em que, deu uma bicada forte no vidro, como se com isso quisesse dizer, “Ei, olhe eu aqui, não me ignore”. 
Me senti constrangido com aquele alerta, vindo de alguém que, na minha ignorância, eu julgava pouco consciente da realidade que nos cerca. Prontamente, olhei fundo nos seus pequenos olhinhos e pude perceber, furtivamente, que ali, naqueles olhos, existe uma consciência, a consciência de alguém, de um ser vivo que conosco partilha do existir. O questionei, de pronto, acerca do que precisava. Havia me esquecido do seu potinho de água, vazio e seco, desde alguns dias. Certamente ele tem outras paragens, e consegue se virar por aí, em busca de suas necessidades básicas. 
Mas vínhamos, o bem-te-vi e eu, criando, digamos assim, uma relação de camaradagem, que não o colocava numa relação de dependência, mas lhe dava um certo conforto, sobretudo, nos dias quentes, de maneira que ele tinha na minha casa, um aprazível porto seguro. Quando o encarei, após a forte bicada, com tom de censura, ele imediatamente olhou para o pote seco. Entendi, prontamente, o duro recado. Não sei exatamente por que, mas achei por bem me desculpar com ele, o que timidamente o fiz falando baixo, enquanto servia sua água. 
Ele bebeu, colocando o bico na água e inúmeras vezes, inclusive, levantando pequenos pingos que atingiam suas penas e o vidro da janela. Claramente, aquilo o alegrava, como se estivesse brincando, feliz como são os sábios, que se alegram, quase sempre, com o pouco que têm à disposição. O invejei, assumidamente, o digo. Pensei em todos os afazeres daquele dia e daquela semana e pensei, por um momento, na agenda dele, do bem-te-vi. Dar voos, visitar minha casa e de outros de seus amigos humanos, estar com seus, parar em alguma árvore por aí, buscar pouso e abrigo para a noite. Ele deve ter suas dificuldades, pensei ao fim. 
“Bem, senhor bem-te-vi, preciso ir agora, tenho uma agenda a cumprir”, foi o que disse a ele. Me olhou novamente, virando a cabeça para os lados, inclinando-a para um lado e para o outro, como se buscasse traduzir minhas palavras. Piou, abriu as asas e se foi, até amanhã, quando nos veremos de novo. 

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