Boas (e poucas) amizades

Roberto Mancuzo

CRÔNICA - Roberto Mancuzo

Data 27/10/2020
Horário 06:04

Não dá para obrigar ninguém a gostar de nós. Isso é impossível e penso que a gente vive alguns dilemas entre querer ser realmente amigo e conseguir esta façanha.
Durante algum tempo eu corri atrás de amizades. Eram pessoas que eu realmente desejava ser mais próximo, ter contato e poder fazer algo nos momentos mais diversos, nas alegrias e tristezas, ou porque compartilhava algum tipo de hobby.
Acontece que sempre dava com a cara na porta. Até tinha contato, mas meio que a coisa não rolava, a cumplicidade não aparecia e havia a sensação de estar parado no meio de um lago sem vento. E aí eu até me culpava, pensando em que foi feito para que aquilo não desse certo.
Às vezes eu até achava um ponto de intersecção e realmente tive culpa. Joguei fora algumas oportunidades. Pela correria do trabalho, não retornava ligações ou nunca podia ir até um boteco ou pescaria porque precisava estar em casa com a família. Também teve o lance de em algum momento da vida ser coordenador ou chefe de algum setor e isso, por si mesmo, gerar dúvidas, raiva, decepção. Uma vez uma dessas amizades promissoras me jogou na cara que eu havia sido omisso em uma situação. Foi triste porque tudo que eu havia feito, nos bastidores, era o contrário, mas não poderia dizer... 
Bem, daí a vida ensina e a gente abre os olhos aos poucos. Com 45 anos nas costas, então, algumas coisas começam a fazer mais sentido.
Como a certeza de que ter amigos não significa escolher, mas de fato aceitar que alguns realmente são e outros não passam de meros desejos do nosso inconsciente.
Quando descobri isto, parei de correr atrás e passei a viver muito melhor.
Hoje, eu cumprimento, dou bom dia e por mais que às vezes ainda sinta que poderia ser mais próximo, entendo melhor a amizade como aquelas que surgem do acaso, em meio aos mais complexos acontecimentos ou na simples rotina do dia e não na eterna necessidade humana de sermos aceitos e bem vistos. Isso é ilusão de Facebook ou Instagram, coisa tonta de rede social.
A amizade boa mesmo está onde menos se espera e talvez a pandemia da Covid-19 tenha nos ensinado bem esta lição.
Está no vizinho que a gente passa batido todos os dias, no irmão, no pai e na mãe, que conseguem sentir alegria somente pela sua presença, no sorriso do filho que lhe diz “Papai, você é meu!”, na esposa que vive a dor e a delícia do casamento, no aluno que não cansa de te admirar, no professor que a gente também não cansa de admirar...
Enfim, está onde você quiser, puder olhar e aceitar. E no fundo, pensando bem, tenho todas as amizades de que preciso para viver!
 

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