Cadetes espaciais

OPINIÃO - Raul Borges Guimarães

Data 07/06/2026
Horário 05:00

Estudantes apressados caminhavam entre as famosas cerejeiras em flor. Alguns saíam das salas de aula carregando fichários e réguas de cálculo e livros. Outros atravessavam os jardins em direção à biblioteca Suzzallo, aquele edifício de inspiração gótica cujas torres lembram um mosteiro medieval. Era o início dos anos 1960. 
Um pequeno grupo de estudantes de geografia estava reunido num dos salões da biblioteca ao redor de uma mesa cercada por livros. Waldo Tobler fazia cálculos num bloco de papel quadriculado. Os números pareciam confortá-lo mais do que as palavras. Brian Berry era o mais entusiasmado. Ele falava dos seus achados ao modelar a distribuição das cidades e algumas regularidades gerais na organização do espaço. Muitas questões inquietavam aqueles jovens cientistas: Por que cidades e atividades econômicas tendem a se distribuir de determinadas maneiras? Como os indivíduos escolhem seus trajetos e deslocamentos no espaço? De que forma a distância influencia as relações entre lugares?
Em algum momento daquela tarde, sem que percebessem, a própria Geografia estava mudando de forma. Durante séculos, os geógrafos haviam descrito montanhas, rios, cidades e fronteiras. Agora aqueles jovens queriam algo diferente. Queriam encontrar regularidades. Procuravam padrões invisíveis escondidos nos mapas, como astrônomos observando constelações que ninguém havia notado antes. Alguns anos mais tarde eles seriam chamados de “cadetes espaciais”. 
A expressão surgiu, inicialmente, como uma brincadeira dirigida aos jovens pesquisadores que trabalhavam sob a orientação de William Garrison na Universidade de Washington, em Seattle, entre as décadas de 1950 e 1960. O apelido refletia tanto o entusiasmo desses estudiosos pelo uso de métodos quantitativos quanto o fascínio pela exploração espacial que caracterizava aqueles anos. Com o passar do tempo, aquilo que começou como uma designação irônica transformou-se em um símbolo de um dos mais importantes movimentos de renovação da Geografia no século XX.
William Bunge permanecia em silêncio. Ele reconhecia o brilho matemático de Tobler e a capacidade teórica de Berry, mas desconfiava daquela confiança crescente nos modelos. Enquanto os dois colegas buscavam leis gerais, que estabelecem uma regularidade observável que se repete sob determinadas condições, Bunge já começava a suspeitar que a realidade social era mais desobediente do que qualquer equação poderia admitir. Por detrás dos sistemas organizados por fluxos e hierarquias, Bunge enxergava pessoas. Ao olhar para as regularidades espaciais, Bunge se perguntava sobre as exceções. Mas esta é outra estória.

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