Carta a um amigo que a Covid levou

Roberto Mancuzo

CRÔNICA - Roberto Mancuzo

Data 09/03/2021
Horário 06:00

Foi nossa última conversa. Trocamos meia dúzia de palavras. Falamos da página sobre as fotos históricas de Presidente Prudente, que você amava, da faculdade, as aulas remotas, combinamos um novo projeto juntos, que nem lembro mais qual era... Sei que no final, você ainda elogiou meu trabalho em fotografia para sua filha e eu rebati na hora para ela que você era um dos melhores companheiros que alguém poderia ter.
Amigo Anderson, se eu soubesse que alguns dias depois você não estaria mais neste mundo, juro que teria ficado mais, inventado qualquer assunto, puxado uma rotina qualquer para discutir. E como ficaríamos conversando, né? Porque para você esse momento era muito mágico. Conversar, debater, aprender, sorrir, passar à frente o que você sabia, o que você conhecia mais do que nós. Um contador de histórias e um incentivador de vidas. Como eu me lembro de estar dando aula na faculdade e ouvir na sala ao lado algum vídeo motivacional, de fé na vida, de esperança. Você amava cuidar da espiritualidade dos alunos e sei que eles deviam curtir muito estes momentos antes da matéria.  
Foi muito difícil receber a notícia de sua partida, sua morte tão prematura. A sexta-feira da semana passada não amanheceu cinza só porque você se foi. O sol não faria uma desfeita dessa com um dos sorrisos mais acolhedores que já conheci. A questão é que acho que nem ele acreditou. A gente não quer acreditar, né? Na verdade, a gente deseja crer muito mais do que a realidade nos impõe. Assim como eu esperava receber uma resposta sua no WhatsApp para todos as minhas mensagens, enviadas desde que você foi para a UTI. Pensei comigo que você ficaria feliz em saber que durante este período todo de internação estávamos lá torcendo, rezando. Mas nada, não veio sua mensagem de volta, a cada dia aumentava a nossa agonia e a verdade dos fatos se tornava mais aberta, dilacerante. 
No mesmo dia de sua morte eu rezei muito por você e por sua família, mas eu também pensei muito que nos dois dias anteriores, o Brasil havia batido o triste recorde de mortes por Covid. Quantos corações dilacerados, como os nossos, neste país tão lindo? Quantas famílias arrasadas? Eu tento achar fé, positividade, mas talvez seja a hora de agir diferente. E não é porque sentimos na pele, mas sim porque este vírus é real sim, ele mata e mata de uma forma que nunca ousamos imaginar. 
Por isso, amigo Anderson, se me permite, nesta carta sentida que escrevo a você, quero abrir um parêntese para reforçar o pedido de que enquanto não estivermos devidamente seguros, que nos cuidemos. Que possamos cuidar inclusive um dos outros. A máscara é importante sim, o isolamento é fundamental e a vacina é nosso desejo. Que a gente não fique brigando por questões políticas e procure ajudar mais, apoiar mais, rezar mais. Que a gente não se acostume com uma morte sequer, quanto mais com 1.900 por dia. Que os egocêntricos e negacionistas acreditem de uma vez por todas que não é sobre eles, é sobre todos nós. E se mesmo assim não for possível mudar a consciência, que fiquem quietos, que não atrapalhem, porque há muito mais pessoas querendo viver e sobreviver neste país do que suas cumplicidades genocidas.      
Amigo Anderson, você era um cara da comunicação, acreditava em todo nosso potencial. Sei que assinaria junto este pedido. 
Vá em paz! Até um dia, companheiro!

 

   

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