Carta ao jurista-professor 

OPINIÃO - Raul Borges Guimarães

Data 10/04/2022
Horário 05:00

Escrevo do centro histórico da cidade de São Paulo, onde estou trabalhando semanalmente. Próximo da sexta-feira, uma chuva fina escorria pelas colunas dos monumentais edifícios da paulicéia desvairada. A exuberante Biblioteca Mário de Andrade, que tanto nos orgulha. O imponente Teatro Municipal e suas palmeiras imperiais. Era meio-dia e uma intensa carga pesada do tráfego dos veículos motorizados insistia em ocupar o espaço. Buzinas, fuligem. 
Nada daquele triste dia venceu as 12 badaladas da Igreja da Sé, que se fez escutar por toda parte. Desde o Palácio da Justiça de São Paulo, localizado na Praça Clóvis Beviláqua, até a Faculdade de direito da USP, no Largo São Francisco. A cidade se curvava em respeito ao passamento do grande professor emérito, cidadão de Serra Negra, o jurista Dalmo de Abreu Dallari. 
Um profundo sentimento de abandono tomou conta do meu peito. Saltava aos meus  olhos as manchetes de jornal daquelas 41 valas clandestinas do poder paralelo no Rio de Janeiro e em São Paulo. Soava nos meus ouvidos as estatísticas do país que mais mata pessoas trans no mundo. As taxas alarmantes de feminicídio. Os conflitos entre os povos indígenas, garimpeiros e madeireiros na questão da demarcação das terras. 
Professor Dallari, não tive a honra de conhecê-lo pessoalmente, mas saiba que sua incansável dedicação aos brasileiros será sempre uma referência na minha vida de professor. Desde os exemplares que guardo com carinho na minha estante de livros (“O que é participação política” e “O que são direitos da pessoa” da coleção Primeiros Passos; o seminal “Elementos de Teoria Geral do Estado) até suas ações  na Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo e sua cátedra da Unesco de Educação para a Paz, Direitos Humanos, Democracia e Tolerância. 
Saiba que seus mais de 60 anos de magistério deixaram marcas profundas no meu imaginário do educador. Fico aqui com suas lições em temas de grande relevância social: o Estado de direito, a soberania nacional, a luta pela democracia, os direito dos povos originários e tantos outros! Sei que se tratam de temas de um campo que anda um pouco esquecido - a conduta ética. Afinal, o “Estado é uma ordem jurídica soberana que tem por fim o bem comum de um povo situado em determinado território” (Dalmo Dallari, Elementos de Teoria Geral do Estado). Preceitos que só ganham vida com extrema coragem, coerência e protagonismo. É o direito como importância fundamental para as pessoas, os grupos sociais e os povos. 
 

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