Casa cheia, bagunçada e barulhenta

Roberto Mancuzo

CRÔNICA - Roberto Mancuzo

Data 03/08/2021
Horário 06:00

Eu tenho uma ideia de família que por vezes pode ser vista como assustadora. 
Para mim, casa cheia, bagunçada e barulhenta é sempre sinal de vida e não de desespero. Que eu me livre de ter um lar quieto, escuro e arrumadinho.
Quando me casei, pensava comigo que aos poucos a minha casa deveria seguir para ser assim, como eu sempre sonhei e já vivi um dia. Lembrar da infância e da adolescência sempre passa, invariavelmente, por degustar os momentos de final de semana sempre ao lado da família. A “real oficial” e aqueles que começaram agregados, mas logo passaram à condição de titulares: padrinhos, madrinhas, tios e tias, o vizinho solteirão, a amiga da mãe e do pai, enfim, todo mundo se reunia e a festa começava. 
Normalmente era aos domingos e eu já sabia bem disso. Tanto que esperava com muita ansiedade por poder ajudar meu pai nos preparativos do churrasco. Depois do açougue íamos comprar a Coca-Cola Família, que por sinal era só de domingo. Uma ou duas, dependendo da quantidade de gente, mas que sempre sobrava para a janta, com aquela colherzinha de chá na boca para não perder o gás. A gente era enganado, mas era feliz. 
O cheiro de churrasco é o que mais me pega até hoje. Não há como não lembrar daquele aroma de início de carvão pegando fogo e as primeiras carnes crepitando no fogo alto. 
Não há como não lembrar da velha mangueira, do chão de terra batida, dos cachorros em volta, a mesinha improvisada e da churrasqueira de barril de óleo como o centro das atenções. 
Dali a pouco, normalmente coincidia com o final da missa, começava a chegar o pessoal. Convidados ou não, estavam ali e a gente ia mastigando, rindo, brincando. A mãe e a madrinha correndo suadas na cozinha para preparar a maionese e o pai lá, rei de tudo, com o guardanapo no ombro e a assadeira retangular de bolo com um pouco de farinha de mandioca do lado. Já,já apareceria um pedaço suculento de carne e gordura. Puro colesterol. Pura vida. 
Hoje, eu tento repetir em casa o que vivi com tanto gosto, embora sinta que às vezes corro em vão, sozinho, e nem é por conta da pandemia que nos afastou consideravelmente. Alguns companheiros já me relataram a mesma tristeza. 
A história de viver junto não parece ser mais uma prioridade. Sei lá a razão. Pode ser por causa da vida confusa de hoje em dia, que injustamente toma lugar do que é realmente importante, e até mesmo as horríveis questões políticas que nos últimos anos, diga-se de passagem, já destruíram muitos momentos de convivência. Quando a adoração por algum político ou alguma ideologia toma lugar no amor que se deve sentir um pelo outro, há algo de muito errado.
Enfim, amigos leitores, ter a casa cheia, bagunçada e barulhenta parece ser hoje um problema, um desgosto. 
Claro que eu respeito a vontade de todos, mas eu tenho que dizer que a vida é uma só e se um dia eu conseguir fazer com que meu filho ou minha filha, ou meus sobrinhos, escrevam uma crônica assim, que lembre o quanto foram felizes com as coisas simples da vida, talvez eu morra feliz. 
 

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