Cidade Velha

António Montenegro Fiúza

De todos os passos dados, rumo a uma qualquer direção, o primeiro é sempre o mais difícil, mas o mais celebrado de todos. Na primeira viagem a Cabo Verde, foi possível visitar a Cidade Velha – anteriormente denominada Ribeira Grande: a primeira cidade do país e a primeira erigida por portugueses, na África Ocidental.
Ao calcorrear as calçadas de pedra basáltica e o chão de terra batida, deixei-me impressionar pelos pensamentos que vagueavam pela minha mente: exploradores aventureiros e intrépidos haviam passeado pelo mesmo espaço, falando a mesma língua que eu… antepassados, talvez. Mas o primeiro passo deles havia sido fulcral, para que hoje, os meus pudessem estar mais firmes e seguros.
Povoada em 1462, Ribeira Grande foi a primeira cidade fundada por europeus, ao sul do Deserto do Sahara e recebeu, ainda, as honrarias de ser a primeira capital do país, sendo nela construída a primeira diocese da Costa Ocidental Africana e a primeira Sé Catedral do continente, a qual, atualmente em ruínas, fora mostruário da antiga glória e resplendor.
Fecunda e de exuberante vegetação por um extenso vale, dotada de uma baía protetora e calorosa, geograficamente situada numa rota privilegiada entre a Europa, a África e as Américas, a Cidade Velha (então a mais nova urbanização) desenvolveu-se de forma acelerada, tornando-se o centro do povoamento da ilha e do país.
Voltadas para o mar, as edificações foram surgindo, parcimoniosamente, dominando a montanha em redor, e formando um anfiteatro, cujo palco principal era o mar. Mar aberto, mar azul, mar de boas e más novas, no seu desassossego constante… De costas voltadas para a montanha e para o vale, de onde provinham víveres e a segurança da terra firme, a primeira cidade crescia.
O porto não se mostrou atraente e apelativo apenas para os povoadores, mas também a ataques corsários constantes; e em 1587, erigia-se o Forte Real de São Filipe – sentinela imponente, a 100 metros do nível do mar, oferecendo proteção e guarida – o primeiro, também, de sua espécie. 
Pela Rua Banana, a primeira rua a ser construída pelos portugueses, ainda se vêm pequenas e rudimentares construções, resquício histórico das primeiras casas; e algumas ruas atrás, ainda se encontra a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, a única remanescente de um extenso conjunto de construções de cariz religioso.
De todos os passos dados, o primeiro é o mais difícil, mas o mais celebrado… e logo, tempos volvidos – quer sejam dias, anos ou séculos, parece que cai em esquecimento, perde-se na memória e extensão das eras. 
De geração em geração, esquecem-se os tropeços e relembra-se as vitórias, e nesta pequena cidade, a primeira, permanecem os sonhos e as honras, vincam-se as batalhas e constrói-se um futuro, que se espera risonho. Planeiam-se próximos passos… tendo o mais difícil, o primeiro, sido já encetado. 

 


 

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