Clube do cigarro

OPINIÃO - Thiago Granja Belieiro

Data 20/06/2026
Horário 04:30

No clube do cigarro, cada membro tem direito a sete cigarros diariamente, distribuídos da seguinte forma: três pela manhã, dois à tarde e dois à noite. Os cigarros, entregues pelas famílias, ficam guardados e sob os cuidados de um funcionário designado especialmente para a função. Entre seus afazeres estão entregar as singulares doses de nicotina a que cada membro tem direito, e anotar, de forma diligente e metódica, as entregas realizadas ao longo do dia. Cada membro pode fazer suas retiradas a qualquer momento, desde que respeite a distribuição por turnos. 
Não é incomum que retirem todos os três cigarros de uma vez, assim como não é incomum que façam retiradas com parcimônia e de forma espaçada, de modo a administrar o acesso às doses a que tem direito. Nesse expediente, também ocorre de um dos membros do clube retirarem apenas um ou dois cigarros pela manhã, poupando doses para a tarde ou noite. Dessa forma e da maneira que podem, cada participante procura administrar, ao longo do dia, como irá desfrutar dos seus sete cigarros diários.
As razões por trás dessa curiosa organização são desconhecidas dos próprios participantes, que as aceitam, não sem reclamação, e fazem o que podem para manter o bom convívio entre si e com a administração. Acontece que o desejo pelo cigarro é constante e essa peculiar forma de distribuição do tabaco gera inúmeros inconvenientes ao membros do clube, que se veem, constantemente, sob a pressão de precisarem calcular em pormenores suas doses de nicotina. No local destinado ao consumo dos cigarros, onde os participantes passam parte significativa do dia, é onde se pode vislumbrar tais inconvenientes. 
Para além da ansiedade gerada, as relações entre os membros são constantemente tensionadas e postas à prova. Quando alguém acende um dos seus preciosos cigarros, os convivas sentem-se tentados a consumir o seu. Isso ocorre, muito geralmente, após o café da manhã e quase sempre todos fumam esse primeiro cigarros juntos. No período entre o café e o almoço, por exemplo, são quatro longas horas em que se tem direito a apenas dois cigarros. Um a cada duas horas, tempo demasiadamente longo para fumantes. Assim, o que mais se escuta no período é: Oh, me dá um trago aí, depois você fuma do meu, blz? Oh, deixa a bituca pra mim, blz? Oh, vamos dividir esse, depois eu divido do meu? 
Evidentemente que tais acordos tácitos são constantemente descumpridos e as relações se veem estremecidas a cada promessa não realizada em torno da nicotina. Com o passar dos dias, os pedidos são acompanhados de recusas e com o tempo, uma egoísta diligência em torno dos cigarros torna-se a regra. São poucos aqueles que escapam a semelhante comportamento e o que se observa, nos casos mais graves, é o consumo às escondidas, nos poucos momentos de solidão que os participantes podem usufruir. Como dito, as desconhecidas razões para semelhante procedimento são bastante obscuras, mesmo aos funcionários do clube e os resultados, aparentemente, podem ser reveladores do caráter humano. 

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