Coisa mais linda...

CRÔNICA - Persio Isaac

Data 28/06/2020
Horário 06:58

Passa das 23h desta sexta-feira. Acredito que a maioria das pessoas não sextou, estão todos dentro de suas casas, com máscaras, estressados com essa quarentena. Estamos todos inseguros, com medo de contrair esse vírus. Meu hobby é assistir filmes nesse horário. Durmo tarde. Mas acordar cedo pra quê? Vejo minha cachorra Amora deitada na minha cama, dormindo um sono invejável. Escuto o barulho de ventos fortes. Abro a janela e vejo os galhos das  árvores dançando ao sabor dos fortes ventos. Sinto o cheiro de chuva. Que delícia. Olho para o céu, que está escuro e não permite que eu veja a luz pálida da lua.

Estou assistindo uma série bem bacana na Netflix chamada “Coisa mais linda”. Estou na segunda temporada. Retrata os tempos de ouro dos anos 50 e 60. É saudável ver a mulher vivida pela personagem Malu se desvencilhar das grossas amarras de uma sociedade conservadora machista. As mulheres lutando para conquistar os seus merecidos lugares na sociedade. Essa série me faz sentir saudade do passado. Como era lindo o Rio de Janeiro. Como era gostoso a minha mocidade. A Bossa Nova surgindo com João Gilberto cantando “Chega de Saudade” de Tom Jobim e Vinicius de Moraes. Os Sombras cantando “Olha a menina” de Júlio Júnior na voz do Pelé nas brincadeiras dançantes da Apea (Associação Prudentina de Esportes Atléticos).

Dou uma pausa de mil compassos nessa série e me pergunto: “Por que o passado parece sempre melhor que o presente”? Uma pergunta filosófica dessa, só posso pedir ajuda a Nietzsche, afinal é o meu filósofo preferido. Também que ingenuidade a minha, o presente está dominado pela Covid-19. E pra completar essa agonia, a imprensa dá a notícia de que está vindo uma nuvem de gafanhotos para a Pátria Mãe gentil. Só falta aparecer o Moysés com seu cajado trazendo mais pragas para esse mundo que se esqueceu dos dez mandamentos.

Olha a diferença entre o passado que vivemos e esse presente que estamos vivendo. Nos anos 70, ali na Rua Almirante Gonçalves, na Praia de Copacabana, estava Renan, o Pelé do futevôlei, como sempre fala meu irmão Roy. Ali tinha um derby de craques entre duas equipes de futebol de praia: o Shelsea do craque Magal contra o Juventus do Nena, irmão do Júnior, lateral do Flamengo. Era sacanagem. Aqui na nossa aldeia tinham os famosos derbys entre o Corintinha de Zé Amaro e a Prudentina do seu Vicente. Pura poesia nos gramados. No basquete, tínhamos os irmãos Marcondes: professor Zé Roberto, Nenê, Vadite e o craque Paulinho. Ramon Rosas no futebol de salão, o nosso Pelé desse esporte. Na malandragem, o lendário Besteirento.

Aos domingos, na Rádio Comercial, as gostosas borrachadas nos calouros do Hélio Athia. O programa de rádio "Os Amigos da Noite" do inesquecível Tito Junior, que dizia que não era gago, apenas tinha um defeito na dicção. Falar o que? No Rio, meu irmão Roy falava sempre de um bom malandro chamado Cícero “Boca Livre”. Levava essa alcunha no seu nome porque era o maior e melhor penetra de qualquer festa que houvesse no Rio de Janeiro.

Um dia ele chegou para o meu irmão e falou: Roy pega esse convite e vai nessa festa aí. Roy olhou o convite e quase caiu morto. Era a festa mais famosa, mais glamorosa do Rio de Janeiro na época. Era patrocinada pelo Rei da Noite, Chico Recarey. Oh Cícero, ‘cê tá loco’. Por quê? Pô, vai desprezar uma festa dessa magnitude? Ah Roy, eu estou de saco cheio dos picadinhos do Chico Recarey. Picadinhos? Os picadinhos que Cícero “Boca Livre” mencionou eram estrogonofe. Dei risada quando o Roy me contou. Pô, mas que malandro enjoado. Outra parada do Cícero é que ele entrava num bar e pedia uma garrafa de água. Tomava e ia embora. Toda vez o garçom ia atrás dele dizendo: Oh Cícero, você não pagou a garrafa de água. E ele na maior cara de pau respondia: Água não se paga, ela vem da natureza. O garçom achava graça. Grande figura.

Ponto para o passado. Hoje temos tipos de malandros dessa estirpe? Hoje Cícero “Boca Livre” já estaria morto a pauladas, vitimado pela violência urbana de um garçom mal humorado ou levava um tiro de um dono endividado de um bar. Tive o prazer de conhecer esse gênio dos penetras na quadra do Salgueiro com meu irmão Roy. Como bom malandro, mostrou uma educação de um lord inglês. Hoje o mundo está dividido em quem é de esquerda e quem é de direita. Um maniqueísmo insuportável. Estamos virando prisioneiros das nossas próprias certezas. Estamos no olho de uma pandemia de mediocridade e ainda não descobriram uma vacina contra a intolerância.

Uma forte energia negativa cobre a nossa mente como se fosse um manto sagrado e os nossos corações parecem urnas frias que sentem falta de serem acariciados pelas mãos de um sonhador. Tínhamos o Santos de Pelé e o Botafogo de Garrincha, o Charles Chaplin do futebol, que, aliás, é o símbolo mais poético de um time de futebol com um nome lírico, a “Estrela Solitária”. Hoje temos o que? Hoje vivemos uma vida de como quem entra num avião de paraquedas. E, por favor, não me chamem de saudosista.

Cadê o pedreiro que vive em cada um de nós para construir nossos sonhos? Estamos percorrendo uma rota comum. Estamos cantando um samba de uma nota só e ainda por cima desafinados. Hoje as discussões só servem para machucar o outro. O reino dos céus vem do coração e não é algo que aparece depois da morte. Como cantou e alertou Belchior: Os nossos ídolos ainda são os mesmos... E temos sorte ainda de serem os mesmos, a falta de talento é enorme. Estamos dentro de um buraco negro procurando uma luz. Vou voltar a assistir “Coisa mais linda”, dormir sonhando com Brigite Bardot e vou entender a Mulher Maravilha se ela quiser sonhar com Alain Delon. Ademã que eu vou em frente como se despedia Ibrahim Sued. Pra encerrar, um samba de Cartola e Elton Medeiros:

“A sorrir

Eu pretendo levar a vida

Pois chorando eu vi a mocidade perdida”.

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