Comer é uma forma de habitar o mundo 

OPINIÃO - Raul Borges Guimarães

Data 03/05/2026
Horário 05:00

Entro naquele restaurante árabe no caminho para o trabalho. Mesas de madeira gastas, um ventilador insistente, o som breve dos pratos. Peço o de sempre. O prato é uma pequena arquitetura de matérias: arroz com vermicelli — branco atravessado por fios dourados —, tabule de salsinha, tomate e hortelã, homus com um fio de azeite brilhando no centro, carne grelhada no espeto, pão sírio levemente tostado. Há ali uma precisão discreta: o ácido, o cremoso, o quente, o neutro. Nada se impõe; tudo se oferece.
Demoro a comer. Esse prato não aceita pressa. Ele pede composição: um pouco daqui, outro dali, sem alarde. Penso, então, que estou diante de um laboratório — não de vidrarias e reagentes nomeados, mas de matéria em transformação. Na cozinha, como na química, não se trata apenas de juntar coisas, mas de produzir algo que antes não existia. O grão-de-bico vira homus; o trigo vira tabule; o calor redesenha a carne. O que está no prato é processo.
Percebo também o método. Na culinária árabe, os elementos são preparados separadamente e combinados depois. Cada um preserva sua identidade, como substâncias isoladas numa análise. É uma química da justaposição: observar, distinguir, equilibrar. O prato organiza o mundo pela convivência dos seus componentes.
E então, me vem à memória o feijão tropeiro. Aquele da panela funda, onde feijão, farinha, ovos, carne e couve já não se distinguem. Ali, o procedimento é outro: integrar, reagir, transformar. Os ingredientes deixam de ser o que eram para dar lugar a um todo inseparável. Uma química da síntese. No tropeiro, a mistura não é etapa — é destino.
Lembro também do frango com quiabo, do tempo lento que se deposita no caldo. Como em certas reações, o resultado não pode ser apressado. Há um controle silencioso de temperatura, de duração, de ponto — variáveis que não cabem inteiramente na receita. O mesmo vale para o tabule: a proporção, o corte fino, o equilíbrio do ácido. Como no laboratório, há protocolos, mas também um saber que escapa à fórmula.
Talvez seja isso que mais aproxima esses mundos: a existência de um conhecimento incorporado. O cozinheiro reconhece o ponto antes de medi-lo; o cientista percebe o fenômeno antes de descrevê-lo. Há um saber que vive no gesto.
Diante do prato, percebo que não estou apenas comendo. Estou lendo territórios. O trigo, as ervas, o azeite falam de uma paisagem. O feijão, a farinha, o fogão a lenha falam de outra. Reduzir tudo a proteína, carboidrato ou gordura seria como reduzir um experimento a números — sem compreender o que realmente aconteceu.
Enquanto termino o prato, penso que comer talvez seja isso: um laboratório cotidiano onde o mundo não é explicado, mas experimentado. Comer é uma forma de habitar o mundo.
 

Publicidade

Veja também