As recentes movimentações em torno das eleições e do funcionamento do Conselho Municipal de Cultura de Presidente Prudente recolocam uma questão no debate público: qual modelo de política cultural queremos para a cidade? O que está em disputa não é apenas uma composição de cadeiras ou um rito administrativo, mas o próprio sentido da participação social na construção das políticas públicas.
Conselhos existem para garantir escuta, mediação e corresponsabilidade entre poder público e sociedade civil. Quando esses espaços se fragilizam — seja por falhas no processo eleitoral, ausência de debate público ou redução do diálogo — o risco não é apenas institucional. O risco é transformar a política cultural em um campo opaco, distante dos territórios, dos coletivos e dos agentes que constroem cultura cotidianamente.
Esse debate ganha ainda mais peso em um contexto mais amplo. Vivemos um período em que o Brasil retomou políticas nacionais estruturantes para a cultura, com recursos, programas e diretrizes que exigem planejamento, transparência e participação para serem bem executados nos municípios. Sem conselhos ativos, legítimos e reconhecidos socialmente, perde-se a capacidade de orientar esses recursos de forma justa, democrática e alinhada às realidades locais.
É justamente por isso que o debate sobre o Conselho não pode ser tratado como um tema restrito a disputas. Ele diz respeito à forma como a cidade decide — ou deixa de decidir — sobre seus rumos culturais. Diz respeito à relação entre poder público e sociedade civil, e à escolha entre uma política construída coletivamente ou definida de maneira fragmentada e vertical.
Ao mesmo tempo, é importante reconhecer que existem iniciativas que apontam caminhos possíveis para enfrentar esse cenário. A realização de encontros formativos, metodologias participativas e processos de escuta qualificada — como o DRP (Diagnóstico Rápido Participativo) aplicado à cultura, proposto pelo Sesc — demonstra que há instrumentos concretos para reconstruir o diálogo, mapear desafios e pactuar soluções de forma coletiva.
Essas experiências partem de um princípio potente: quem vive o território conhece seus problemas. Ao estimular a reflexão coletiva entre artistas, produtores, gestores, mediadores e coletivos, o DRP fortalece a capacidade da sociedade civil de identificar entraves estruturais e formular caminhos de superação que não dependem de decisões unilaterais.
O momento exige maturidade institucional e responsabilidade política. Em vez de reduzir o debate a conflitos, é preciso ampliar o olhar e compreender que fortalecer conselhos, garantir processos participativos e investir em metodologias de escuta não são concessões — são condições básicas para que a cultura cumpra seu papel como direito, trabalho, economia e expressão simbólica da cidade.
Portanto, não é apenas uma eleição ou um mandato. É a possibilidade de Presidente Prudente consolidar uma política cultural democrática, transparente e conectada com seus territórios. E, diante desse desafio, iniciativas que apostam na participação social não são apenas bem-vindas — são necessárias.