CPI na era da Pós-Verdade

OPINIÃO - Thiago Granja Belieiro

Data 03/06/2021
Horário 04:30

O teórico da comunicação Muniz Sodré, em entrevista de divulgação de seu novo livro, “A Sociedade Incivil”, mostra como no mundo contemporâneo, a força da convicção é maior do que a da verdade. Segundo o autor, vivemos um tempo de saber sem sabedoria, de fala sem diálogo, da emoção que substitui a fé e a verdade. 
Vivemos a era da Pós-Verdade, algo anunciado por Nietzsche quando afirmou que: “Não há fatos, apenas versões”. Em 2016, a Universidade de Oxford elegeu a Pós-Verdade como palavra do ano, e observou que a utilização do termo aumentou 2000% naquele período, notadamente, no mundo político. 
Isso significa que fatos objetivos não têm importância e convicções e versões se colocam no lugar da verdade. Temos observado isso de forma clara e distinta nas fake news, no negacionismo científico, no terraplanismo, na distorção de dados climáticos, no apagão do Censo, entre outros. 
Na CPI da Covid, temos tido oportunidade única de compreender a Pós-Verdade e seus efeitos deletérios. É possível notar pelos depoimentos colhidos até aqui, e mais, pela observação dos fatos correntes em 2020 e agora em 2021, que parece claro que o governo federal adotou a Pós-Verdade como critério central de (não) combate à pandemia. 
Negou evidências científicas, adotou estratégias controversas, tais como a imunidade de rebanho e o tratamento precoce, negou a importância das vacinas ao desprezar ofertas de compra dos imunizantes, escondeu ou desconsiderou dados epidemiológicos, entre outros fatos conhecidos de todos. 
O mais surpreendente foi a negação do negacionismo, nas palavras do relator Renan Calheiros, pois apesar da sapiência pública dos fatos investigados, ex ministros de Estado e agente públicos adotaram a Pós-Verdade como estratégia central nos seus depoimentos, negando, ocultando ou simplesmente mentindo sobre suas falas, ações e negligências durante a gestão da pandemia. 
O sistema Judiciário brasileiro trabalha com evidências e provas, e dado que na burocracia do Estado e na sociedade informacional tudo fica registrado, o segundo mês da CPI tem grande potencialidade de desconstruir a Pós-Verdade e deixar evidente e materializado com provas as ações e omissões de agentes públicos na pandemia. É o mínimo que a sociedade espera: provas e responsabilizações. A CPI está aí para provar nossa (in) civilidade. 

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