Por muito tempo, nos acostumamos a tratar a criatividade como dom. Algo quase inato, que algumas pessoas teriam desde o nascimento. Quando alguém criava algo interessante, dizia-se que era talento. Quando não criava, faltava inspiração. Essa explicação sempre foi prática, mas hoje já não dá conta da realidade.
Vivemos em um tempo de excessos. Excesso de informações, de imagens, de discursos e de estímulos. As ideias surgem o tempo todo, nas telas, nas conversas, nas redes, nos anúncios. Nunca foi tão fácil produzir algo. Ao mesmo tempo, nunca foi tão difícil produzir algo que realmente faça sentido.
Criar, hoje, não é apenas ter uma boa ideia. É saber escolher. Escolher o que merece existir, o que dialoga com o contexto e o que apenas repete fórmulas prontas. Nem tudo que chama atenção permanece. Nem tudo que é novo contribui. Toda criação comunica. Mesmo quando não há intenção explícita, toda produção carrega valores, visões de mundo e posicionamentos.
Por isso, a criatividade deixou de ser apenas expressão pessoal. Ela passou a exigir consciência. Consciência social, cultural e tecnológica. Consciência do impacto do que se coloca em circulação. Essa mudança ajuda a entender por que criar deixou de ser um ato impulsivo e passou a ser um processo. Criar envolve observar, escutar, testar, errar e refazer. Envolve repertório e leitura de mundo.
A intuição continua importante, mas ela se fortalece quando encontra conhecimento e método. Também mudou a forma como criamos. A criação deixou de ser solitária. Hoje, ela acontece em rede, no diálogo entre pessoas, linguagens e ferramentas.
A presença cada vez maior da inteligência artificial deixa isso evidente. As tecnologias ampliam possibilidades, mas não tomam decisões por nós. Essa responsabilidade continua sendo humana. Talvez por isso a pergunta central tenha mudado. Já não basta perguntar se algo é criativo.
A questão passou a ser: isso faz sentido? Isso contribui? Isso acrescenta algo ou apenas ocupa espaço em meio ao excesso? E daí? Daí que reconhecer que criar é algo que se aprende/muda completamente nossa relação com a criatividade. Ela deixa de ser privilégio e passa a ser construção. Um percurso feito de estudo, prática, troca e reflexão. Em tempos de excesso, criar com consciência e conhecimento talvez seja, justamente, o gesto mais criativo que podemos fazer. E sim criatividade se aprende.