Cultura para quem?

OPINIÃO - Helber Henrique Guedes

Data 20/06/2026
Horário 05:00

Durante muito tempo aprendemos a medir a cultura pelo tamanho dos eventos. Quantas pessoas participaram? Quantos espetáculos aconteceram? Quanto foi investido? Quantos ingressos foram distribuídos?
São perguntas importantes. Nas últimas semanas, durante uma agenda de estudos em Portugal, participei de debates sobre programação cultural, mediação, comunicação, participação cidadã e gestão de equipamentos culturais. Em diferentes mesas, com diferentes sotaques e experiências, uma mesma inquietação aparecia: como fazer a cultura chegar a quem normalmente não chega?
Quando pensamos cultura apenas como oferta, basta organizar atividades. Quando pensamos cultura como direito, precisamos perguntar quem está ficando de fora.
Foi interessante perceber que muitas das discussões portuguesas não estavam centradas apenas na produção artística. Falava-se de mediação cultural, de participação, de construção de vínculos e de escuta. Falava-se da necessidade de criar pontes entre instituições e comunidades.
Uma fala me chamou particularmente a atenção. Um dos participantes afirmou que comunicar não é divulgar. Comunicar é criar relação. A diferença parece pequena, mas é enorme. Divulgar é informar que algo existe.
Comunicar é fazer com que alguém se reconheça naquele processo.
Por isso a mediação cultural tenha aparecido tantas vezes nos debates. Não como uma atividade complementar, mas como parte essencial da política cultural. Afinal, não basta construir teatros, museus, centros culturais ou bibliotecas. É preciso criar caminhos para que as pessoas ocupem esses espaços como parte de suas vidas.
Essa reflexão me levou a pensar sobre a realidade brasileira.
Nos últimos anos avançamos muito na construção de políticas públicas culturais. O Sistema Nacional de Cultura, os Pontos de Cultura, a Política Nacional Aldir Blanc e tantos outros instrumentos representam conquistas importantes. Mas ainda enfrentamos um desafio permanente: transformar acesso em pertencimento.
Uma pessoa pode frequentar um espetáculo sem se sentir parte da vida cultural da cidade.
Pode visitar um museu sem se sentir representada.
Pode conhecer uma política pública sem acreditar que sua opinião importa.
Por isso os conselhos de cultura, as conferências, as audiências públicas e os processos de consulta não são meros procedimentos burocráticos. São espaços onde a cultura deixa de ser algo oferecido pelo poder público e passa a ser construída coletivamente.
O maior aprendizado dessa experiência tenha sido perceber que a cultura não se fortalece apenas quando aumenta seu orçamento ou sua programação. Ela se fortalece quando amplia sua capacidade de escutar.
Escutar artistas.
Escutar produtores.
Escutar comunidades.
Escutar quem nunca foi ouvido.
Porque uma política cultural madura não é aquela que fala mais alto. É aquela que consegue ouvir mais longe.
É exatamente esse o desafio que temos diante de nós em Presidente Prudente e em tantas outras cidades brasileiras: menos preocupação com a quantidade de eventos e mais atenção à qualidade das relações que somos capazes de construir através deles.

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