Com quase três décadas de estrada, Dan Rosseto não é apenas um nome consolidado no teatro brasileiro; ele é um estrategista da sobrevivência cultural. Em uma conversa franca ao canal Taggarella TV, o diretor, ator e roteirista prudentino — responsável por sucessos como a série “As Aventuras de José e Durval” (Globoplay) — revelou os bastidores de sua trajetória e disparou contra a falta de profissionalismo na divulgação de artes cênicas.
A DISCIPLINA POR TRÁS DO "GLAMOUR"
Diferente da imagem romântica do artista que espera pela inspiração, Rosseto defende uma rotina férrea. "Eu trabalho 15 horas por dia. Comigo não tem romantismo nem glamour. Eu cavuco minhas oportunidades", afirmou. Para ele, o processo criativo é uma questão de organização, mantendo "pastas e agendas" para cada projeto, permitindo que ideias descansem até o momento certo de serem servidas.
O EMBATE COM A TECNOLOGIA E A IA
Questionado sobre o impacto da Inteligência Artificial e do streaming, Dan foi categórico: nada substitui o encontro presencial. "O teatro é o humano versus o humano na sua frente. Isso me parece imbatível". No entanto, ele alerta que a classe artística precisa abraçar o marketing digital de forma profissional para não sumir das "estantes de venda" virtuais.
Sobre a IA na escrita, o dramaturgo compartilha um experimento que faz com seus alunos: "A ideia que está na IA já é a ideia de alguém. Perde-se a questão autoral. Eu não luto contra a máquina, eu me adapto, mas confio na minha inteligência".
DE NELSON RODRIGUES A CHITÃOZINHO E XORORÓ
Ganhador do Troféu Nelson Rodrigues em 2018, Rosseto viu sua carreira atingir um novo patamar ao roteirizar a cinebiografia de Chitãozinho e Xororó. Ele revelou que o convite surgiu da forma mais pura possível: um diretor o viu trabalhando no teatro. "Tudo o que acontece na minha vida é graças a esse templo sagrado que é o palco", celebrou.
O LADO EMPRESÁRIO E O FUTURO
Atualmente, Dan foca na circulação de espetáculos como "Em Seu Lugar" (com Bianca Rinaldi e Bárbara Bruno) e na manutenção de seu acervo digital, que conta com 25 textos teatrais disponíveis em seu site oficial. Para ele, o artista moderno precisa ser, acima de tudo, um empreendedor.
"Cultura não é só aquilo que você gosta e consome. Precisamos oferecer valor agregado para que o público entenda que, ao pagar um ingresso, ele está investindo em uma experiência que entrega o que promete", concluiu o diretor, que segue se dividindo entre a direção, a escrita e a formação de novos talentos nas salas de aula.
Ele revela que, apesar de atuar desde a infância, foi ao assumir a responsabilidade de dirigir um grupo, há 15 anos, que encontrou sua verdadeira vocação. "Foi quando eu realmente me encontrei, descobri que aquilo era o que eu queria pra mim", afirma. A paixão, segundo ele, é o combustível que transforma o desafio em realização, definindo o teatro não como um mero trabalho, mas como um ofício movido pelo amor à arte.
“A CRISE DO ESPETÁCULO AO VIVO”
O entrevistado não ignora os obstáculos contemporâneos. Rosseto aponta uma "crise do espetáculo ao vivo", onde competir pela atenção do público tornou-se um dos maiores desafios. "É muito difícil você tirar as pessoas de casa", observa, destacando a concorrência com o entretenimento digital. Como resposta a esse novo cenário, ele e seu grupo abraçaram as redes sociais, especialmente o Instagram, como ferramentas vitais. Essas plataformas deixaram de ser apenas cartazes virtuais para se tornarem espaços de criação de conteúdo próprio, conexão com o público e divulgação do processo criativo, essenciais para a sobrevivência e visibilidade do teatro local.
Apesar das dificuldades, a agenda segue movimentada. Dan Rosseto adianta os projetos em andamento do seu grupo de teatro, incluindo ensaios para novas montagens e a preparação de esquetes para eventos privados. Sua fala transcende a autopromoção e se transforma em um convite à reflexão para a comunidade. Ele faz um apelo para que o público brasileiro valorize e busque ativamente a produção cultural local, reforçando que o apoio da plateia é fundamental para que a magia do teatro continue a iluminar os palcos do interior paulista.