Desafios da espiritualidade cristã

OPINIÃO - Saulo Marcos de Almeida

Data 20/07/2021
Horário 04:30

É de extrema contradição que, ao longo da história da cristandade, ainda há a necessidade de afirmar a relevância de Jesus Cristo na espiritualidade humana. 
Talvez o paradoxo acima encontre lugar na própria confissão de fé dos cristãos que, ao idealizar sobremaneira a Cristo apenas como conceito julgando-o a priori somente no nível do conhecimento, negou a realidade de sua ação efetiva na vida humana.
Para fundamentar, então, os desafios de uma espiritualidade cristã, sugere-se a superação do ideal em detrimento do concreto/objetivo, com o intuito de alimentar uma mística não apenas idealizada, mas comprometida com a existência tomando como ponto de partida: Jesus e sua ação na história da humanidade.
Há inúmeros exemplos na espiritualidade de uma fé cristã com implicações históricas na vida de nações inteiras e povos espalhados em todo o mundo. Contudo, vale ressaltar dois momentos peculiares de uma existência, genuinamente, espiritual. 
Não se prescinde da experiência de fé dos cristãos nos primeiros séculos depois de Cristo. Homens e mulheres foram perseguidos e mortos em nome da resistência que se fazia aos imperadores romanos em detrimento da soberania do messias, sobretudo, ressuscitado e Senhor da história. Tempo de crescimento da igreja cristã, mas, sobretudo, oportunidade de afirmar a centralidade do Verbo que se entregara em favor da salvação do ser humano. “Salve Cristo! É dEle a nossa obediência irrestrita e a nossa vida”, afirmavam os primitivos cristãos sob o ônus da perseguição religiosa. 
Outro exemplo de espiritualidade cristã pode ser recordado na Reforma Protestante do século XVI. Paul Tillich denomina o movimento reformado de “espírito protestante” - caracterizado pela tolerância e liberdade que deve haver na prática religiosa de cunho não autoritário. Como todo processo histórico, a Reforma Protestante teve também seus limites e defeitos, contudo, o espírito protestante não foi negado: a liberdade sobre os ditames autoritários. O espírito protestante submisso apenas a Cristo tratou de subestimar os poderes temporais que não estivessem sob o valor máximo do Solus Christus. Para ilustrar tal intencionalidade, as palavras de Martinho Lutero: “Portanto, aprenda Cristo e o aprenda crucificado; aprenda a orar a ele perdendo toda esperança em si mesmo e diga: Tu, Senhor Jesus, és a minha justiça e eu sou o teu pecado; tomaste em ti mesmo o que não eras e deste-me o que não sou”. 
Num tempo de exagero denominacionalista em que se ampliam as barreiras e limites em nome de uma doutrina e, consequentemente, exagerado juízo de valor. Numa época de crescente personalismo em torno de líderes religiosos, elevados à potência máxima de suas imagens nas mais variadas mídias, tornando-os quase ídolos em segmentos religiosos. Em uma era de intolerância com o diferente, superestimando apenas os iguais, se faz urgente declarar e viver, concretamente: Cristo, a verdadeira medida da espiritualidade e Senhor de toda a história humana! 
 

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