Dia dos vizinhos

OPINIÃO - Raul Borges Guimarães

Data 13/06/2021
Horário 04:30

Eu terminei a semana muito cansado. Pensei em escrever sobre o vazio no peito que sinto ao viver num lugar que parece não fazer a menor diferença a perda de quase 500 mil vidas pela Covid-19. Onde é natural tirar vantagens sobre negócios que enriquecem poucos às custas do aumento da fome, do desaparecimento da vida silvestre e da queima de nossas matas... Mas encontrei no meu caminho a Dona Cida. Ela admirava a florada do ipê branco na sua calçada. E o lindo sorriso dos seus olhos me fez lembrar da importância de ter bons vizinhos! 
Tenho muitas recordações de bons vizinhos... Ao lado da casa que vivi até os 5 anos de idade, tínhamos a Dona Fátima, mãe de meu amigo-irmão Lúcio Flávio. Foi com ele que ensaiei as primeiras caminhadas mais distantes de casa. Brincávamos de equilibristas por cima do muro que dividia nossas casas e de arremessar pedregulhos ora no telhado de um, ora no telhado do outro. Quando mudei para Presidente Prudente, vivi muitos anos ao lado da casa da Dona Sati e Seu Pedro. Eu passava a pequenina Julia por cima do muro do quintal para comer o “peixinho au-au” que a Sati fazia especialmente para ela.  
Fátima, Sati e Cida me fizeram lembrar da visita que eu realizei na casa de Cora Coralina, localizada às margens do Rio Vermelho na cidade de Goiás. Não me lembro de ter sido tocado tão profundamente por um espaço museológico como no museu da grande poetisa brasileira, aquela simpática senhora que publicou seu primeiro livro quando já tinha quase 76 anos de idade! Todas as coisas dela estão preservadas ali, no seu devido lugar, esperando ela voltar de alguma saidinha rápida que teve de fazer para comprar ingredientes no mercado enquanto o feijão cozinhava no ritmo do estalo do fogão à lenha. Sua mesa de trabalho com alguns escritos sobrepostos aos livros, suas cartas trocadas com Jorge Amado, seu livro de receitas de bolo ao lado de prêmios e títulos que recebeu de inúmeras universidades brasileiras. 
Imagino quantas histórias tinha para contar para os seus vizinhos... Deve ser por tal motivo que Cora Coralina foi a responsável pela criação do Dia do Vizinho, comemorado no Estado de Goiás no dia 20 de agosto. A exposição de motivos que criou a lei foi escrita pela própria poetisa. Segundo ela, “o vizinho é o parente mais próximo”. Nunca esqueçam. “Recria tua vida, sempre, sempre. Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça. Faz de tua vida mesquinha um poema”. (Cora Coralina) 
 

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