Dialética do smartphone

OPINIÃO - Thiago Granja Belieiro

Data 14/04/2021
Horário 04:30

Os filósofos alemães da Escola de Frankfurt foram talvez os primeiros a apontar como a disseminação dos meios de comunicação de massa seria muito mais alienante do que esclarecedora. De início, o potencial de comunicação representado pelas novas tecnologias levou muitos a acreditarem que o esclarecimento chegaria a um número cada vez maior de pessoas. Contudo, rapidamente perceberam que os mesmos meios poderiam ser usados para o contrário disso, isto é, para a alienação e a barbárie cultural. 
Os telefones celulares “inteligentes”, uma verdadeira revolução tecnológica, onipresentes em várias esferas de nossas vidas, podem, dialeticamente, cumprir diferentes papéis no que diz respeito ao acesso à informação, ao conhecimento e ao esclarecimento. Pesquisa da FGV (Fundação Getúlio Vargas) mostrou que existem no país 234 milhões de smartphones ou possibilidades de acesso a sites de notícias, bancos de dados, artigos científicos, livros, documentários, museus, músicas, filmes, etc. 
Entretanto, os brasileiros consomem apenas 11% dos dados de internet com a navegação em sites de busca ou notícias, utilizando o restante dos dados em comunicação, redes sociais, games e streaming de vídeos, como Netflix e Amazon. O que esses dados mostram é que claramente o smartphone é muito mais uma fonte de alienação do que de esclarecimento. O Netflix, por exemplo, consome 36% do tempo dos brasileiros assinantes da plataforma, o que equivaleria a oito horas diárias, segundo pesquisa encomendada pela Ericsom. 
Não surpreende, portanto, que sejam os smartphones os maiores canais de alienação, pois, diariamente o que se observa são muitas pessoas vidradas nas telas, utilizando redes sociais, vendo vídeos no YouTube ou no TikTok. São sempre pelo smartphone que chegam até nós as fake news, as desinformações, as crenças em soluções mágicas e milagrosas aos nossos problemas atuais, afinal, “recebi no grupo da família” é a frase padrão nesses casos. 
O que me pergunto sempre é, onde foi parar o senso crítico das pessoas? O bom senso? A dúvida metódica? A ferramenta que traz a mentira é a mesma que traz a verdade. Entre o esclarecimento e a alienação, dar um Google talvez seja o melhor caminho. Fazer bom uso dessa fantástica ferramenta é também uma questão de educação, de ética e de civilidade. 
 

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