O ar desaparecia silenciosamente no meio da madrugada, deixando apenas o som do vento batendo contra a lona da barraca. A exatos 5.600 metros de altitude, no Campo Base do Everest, o termômetro marcava entre -5 °C e -7 °C quando o cirurgião-dentista prudentino, Ubiratan Sevilha, aos 70 anos, despertou sentindo o peso da atmosfera rarefeita do Himalaia. Não havia dor de cabeça ou náusea, os sintomas mais temidos do mal da montanha, apenas a sensação nítida de que o oxigênio havia se tornado um artigo de luxo. Longe do consultório e das corridas de rua no Brasil, o septuagenário controlou a respiração, bebeu mais um gole da água que carregava e contemplou a imensidão da montanha mais alta do planeta. A jornada mais ambiciosa de sua vida atingia ali o seu ápice.
A odisseia começara dias antes, com um exaustivo voo de 18 horas do Brasil até Kathmandu, a vibrante e caótica capital do Nepal.
Após 48 horas de aclimatação inicial, Ubiratan embarcou em uma pequena avioneta rumo a Lukla, vilarejo encrustado na rocha cuja pista curta e inclinada de pouso é classificada pelos pilotos como a aproximação mais perigosa e desafiadora do mundo.
Em Lukla, a 2.500 metros, o dentista aplicou a disciplina técnica herdada de suas experiências anteriores nos Andes: subidas lentas, respeito ao tempo do corpo e uma hidratação severa que exigia o consumo de pelo menos quatro litros de água por dia.
OITO DIAS DE PASSOS LENTOS NO KHUMBU
Acompanhado por um guia local, Ubiratan iniciou o trekking de oito dias pelo Vale do Khumbu em direção à face sul do Everest. A subida gradual operava em um ritmo quase meditativo, avançando de 3.100 para 3.800 metros, cruzando pontes suspensas que balançavam sobre rios de gelo derretido e respirando o ar puro da cordilheira.
A ESCALADA DA ACLIMATAÇÃO GRAF
• Base Inicial: ──► Lukla (2.500 m) - Preparação e hidratação intensa
• Entreposto: ────► Namche Bazaar (3.440 m) - A mítica capital dos Sherpas
• Ápice Sul: ─────► Campo Base do Nepal (5.600 m) - Pernoite sob frio extremo
• Teto da Viagem: ► Fronteira Tibetana (6.100 m) - O limite do ar rarefeito
No meio do caminho, o cansaço físico deu lugar ao fascínio cultural ao cruzarem Namche Bazaar, a histórica "capital dos Sherpas".
O vilarejo, que há séculos serve como ponto de comércio de sal e tecidos entre o Tibete e o Nepal, exalava o cheiro de incensos e caldos quentes.
Para manter a energia no percurso, o brasileiro evitou as adaptações ocidentais como batatas fritas e preferiu as sopas condimentadas locais, respeitando a cultura budista e hindu que proíbe o consumo de carne bovina na região.
DOS CÂNIONS NEPALESES AO DESERTO DO TIBETE
Após passar uma noite no místico Campo Base sul, cercado pelas barracas amarelas das expedições profissionais que aguardavam a curta janela anual para tentar o cume, Ubiratan iniciou o retorno. A descida foi rápida: um voo de helicóptero cortando os cânions profundos de volta a Lukla e, na sequência, a avioneta até Kathmandu.
"Atingir os 6.100 metros na face norte, já no lado chinês, foi o ponto máximo. Sentir a falta de ar ao dormir impressiona, mas ver o Everest por duas perspectivas diferentes recompensa qualquer esforço", relata o viajante.
AS DUAS FACES DA MONTANHA
• Lado do Nepal (Face Sul): ─► Trilhas rústicas, vilarejos Sherpas e espiritualidade
• Lado da China (Face Norte): ► Planalto árido, visual do Atacama e estrutura moderna
A segunda parte da aventura consistiu em uma travessia rodoviária de ônibus até a fronteira com a China.
Ao ingressar no Tibete, a paisagem transformou-se radicalmente.
Diante dos olhos do cirurgião-dentista, o cenário verdejante do Nepal deu lugar a uma vasta planície desértica de tons marrons, que lembrava o solo do Atacama, contrastando com os picos perenemente brancos ao fundo, de onde contemplou a imponente face norte do Everest.
O RETORNO DO MARATONISTA
• Registro Textual: ─► Finalização do diário de bordo em 31 de maio de 2026
• Transição Física: ──► Retorno ao Brasil e recuperação muscular pós-altitude
• Desafio Atual: ─────► Participação em meias maratonas e provas de asfalto
De volta à rotina, o corpo do cirurgião dentista de 70 anos mostrou os benefícios da superoxigenação da altitude.
Sem tempo para descanso, ele registrou sua participação em uma meia maratona de rua logo após o desembarque, no Rio de Janeiro.
Para quem cruzou as maiores altitudes da Terra a pé, os 42 quilômetros do asfalto urbano tornaram-se apenas mais uma linha de chegada a ser cruzada com a mesma resiliência testada no teto do mundo.

BIRA APÓS O POUSO EM LUKLA, VILAREJO ENCRUSTADO NA ROCHA CUJA PISTA CURTA E INCLINADA DE POUSO É CLASSIFICADA PELOS PILOTOS COMO A APROXIMAÇÃO MAIS PERIGOSA E DESAFIADORA DO MUNDO.

BIRA: “VER O EVEREST POR DUAS PERSPECTIVAS DIFERENTES RECOMPENSA QUALQUER ESFORÇO”