Educação SEM distância

OPINIÃO - Raul Borges Guimarães

Data 06/12/2020
Horário 06:00

Mais uma semana de pandemia. E a estranha e sinistra vivência de espaço e de tempo continua. Não consigo terminar tarefas previstas há meses. Parece que elas foram assumidas há pouco tempo porque o intervalo de uma semana parece durar menos e os prazos sofrem encurtamento. É a compressão do espaço pelo tempo no mundo virtual no qual fomos todos submersos. No ciberespaço não há dia e noite. Não há final de semana. As relações de vizinhança e as noções do perto e do longe são relativizadas ao extremo. É por isso que o tempo no ciberespaço é denso. Revejo as atividades realizadas na agenda: elaboração de questões e atividades, revisão de textos e relatórios, aulas remotas, muitas reuniões, pesquisas virtuais, revisões das provas (muitas e muitas horas por dia). Refaço essas atividades mentalmente. Elas giram na minha cabeça como um turbilhão, mas aparecem como um trailer de um filme em câmera lenta. Tudo é muito rápido e lento.

Dizem que a pandemia acelerou uma mudança que já estava em curso. O que se transformaria num período de cinco anos ocorreu nos últimos seis meses. Tivemos que nos apropriar das novas tecnologias da informação e comunicação (TICs). Imagens transmitidas por satélite e interatividade por meio da Internet. Graças a estes avanços tecnológicos, pudemos dispor de um extraordinário volume de dados utilizados por uma quantidade de pessoas e em situações que jamais poderiam ter sido imaginadas antes: nas escolas, no lazer, nos negócios. Mas isso não implicou na solução de todos os problemas provocados pela pandemia. Pelo contrário, reafirmou nossas diferenças e acentuou ainda mais as desigualdades sociais. Milhões de jovens abandonaram as escolas no mundo inteiro. É estarrecedora a diversidade de condições de acesso dentre os sobreviventes das aulas virtuais.

Isso não quer dizer que as novas tecnologias são as responsáveis por isso. A incorporação das TICs nas experiências curriculares é um processo irreversível, assim como será crescente a necessidade de ações de inclusão digital. Outro engano é de quem pensa que na EaD (Ensino à Distância) há uma diluição do papel do professor. Muito pelo contrário, mais do que nunca, essas novas tecnologias clamam por maior clareza das intenções e finalidades, aonde se quer chegar, o que reforça o papel do professor. É por isso que prefiro denominar a EaD como “educação SEM distância”. Afinal, qualquer processo de ensino-aprendizagem não distancia, mas aproxima as pessoas. São sempre práticas partilhadas. A educação é comunicação, é diálogo. 

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