“Sem a tradição, os homens seriam pouco melhores que moscas de verão.”
(Edmund Burke)
“Sem a história, os homens sucumbem ao medo da natureza finita da vida.”
O longão de hoje foi muito proveitoso e propício a algumas reflexões. Decidi realizar uma rodagem leve, já que estou apenas no início de um ciclo que, muito provavelmente, se demonstrará exaustivo e penoso. Ainda assim, mantenho meu ânimo, pois sei que será gratificante. Afinal, a jornada só é significativa precisamente porque envolve a superação de obstáculos e adversidades.
Não obstante, quero discorrer acerca de outro assunto. Ao longo do meu trajeto, passei por algumas academias de rede, dentre as quais a Hell Fit e a Bleak Fit. Logo ao final do treino, vieram-me à mente as palavras de um estimado colega do doutorado. Ele costuma dizer que “os escoceses jamais teriam louvado a sociedade comercial se tivessem visto as academias de rede”. Em termos mais simplificadores e pedagógicos, isso significa que os pensadores hoje tidos como “precursores e fundadores do liberalismo econômico” jamais apoiariam a lógica que sustenta tais academias.
Eu mesmo costumo dizer que elas constituem o arquétipo da barbárie da civilização (kkkk). Mas por que toda essa visão explicitamente pejorativa? O que exatamente me incomoda? Elencarei quatro motivos, a saber: o embotamento mental dos donos e frequentadores; a constante teatralização do eu; um culto patológico e obsessivo ao corpo; e, por fim, uma mistura patética e exagerada de cores, geralmente envolvendo preto e vermelho (talvez uma prefiguração da alma dos que ali estão… ou do destino eterno delas).
O cerne da minha crítica, contudo, envolve um tema que muito me encanta na filosofia política: a questão da tradição no pensamento conservador. De certo modo, nenhum de nós vive efetivamente sem um senso de tradicionalismo. Todos respeitamos valores e costumes que nos foram legados e herdados, e isso é majestoso. A perspectiva de continuidade funciona como um dos pilares de estabilidade em um mundo cada vez mais caótico e instável.
Quando comemoro minhas conquistas e progressos, por exemplo, lembro-me de todo o esforço e sacrifício que meus pais fizeram para que eu pudesse desenvolver, com maior intensidade, as qualidades e aptidões necessárias a essas vitórias. Por isso, a minha felicidade acaba sendo também a felicidade deles. A glória dos pais resplandece sobre a dos filhos, assim como a dos filhos resplandece sobre a dos pais. Eis um exemplo concreto de continuidade.
A tradição envolve igualmente honrar a história pessoal daqueles que merecem ser lembrados. O verdadeiro conservador guarda na memória o sacrifício dos que, apesar das adversidades, preservaram a convicção em valores legítimos. Por isso, a lembrança ocupa um papel determinante no bojo do conservadorismo. Quantas vezes, em momentos de hesitação ou tristeza, recorremos à memória daqueles que fizeram de nós quem somos?
Não é preciso ir longe para valorizar quem merece ser honrado. Convivemos diariamente com pessoas sufocadas por angústias e tristezas, mas que ainda mantêm suas convicções e virtudes. Talvez seja trágico que não sejam lembradas como deveriam. Mas há coisas que só fazem sentido quando fracassam. Há vitórias que corrompem, assim como há derrotas que não humilham. Nem toda derrota é necessariamente um fracasso; algumas são expressões de fidelidade a um valor.
Na perspectiva cristã, a virtude é silenciosa, e os mais virtuosos costumam ser marginalizados pelo mundo. Por isso, é preciso cautela com quem elegemos como objeto de admiração. Um procurador da República receber o título de cidadão honorário é algo relativamente fácil, mas quantos morreram no esquecimento após terem realizado um bem verdadeiramente edificante?
Cabe agora explicar o nexo causal entre o desprezo às academias de rede e o respeito ao senso de continuidade. Aqui, aproximo-me deliberadamente de um conservadorismo romântico, valorizando a noção de enraizamento. Sempre enalteci aqueles que utilizam o trabalho como expressão de quem são: de sua vocação, de seus sonhos, de suas convicções e virtudes. Há uma força moral específica quando o trabalho se apresenta como expressão da própria história pessoal.
Meu pai, por exemplo, sempre foi apaixonado pelo esporte. É formado em fisioterapia e educação física, e sua vocação é, inquestionavelmente, fazer com que outros experimentem os benefícios do esporte. Por isso, sempre dedicou muito de si à sua academia, respeitando a individualidade biológica de seus alunos, bem como suas circunstâncias e contingências próprias. Isso é precisamente o oposto das academias de rede.
Nelas, os donos são apenas gestores de capital e empreendedores, ou melhor, instrumentalizadores por excelência da saúde e de qualquer outro valor significativo. Algumas dessas redes já se configuram como sociedades anônimas, isto é, o grau máximo da impessoalização. Creio que manter o trabalho como expressão da própria história e identidade constitui uma forma genuína de preservar o enraizamento: ancorar-se em algo que transcende o meramente útil, financeiro e pragmático.
Enraizar-se, afinal, é enraizar-se em princípios dignos, em valores moralmente significativos. A paixão que meu pai tem pelo esporte foi herdada por mim e, certamente, levarei essa vontade adiante. Isso é edificação por excelência. Creio que isso seja a tradição: honrar a história pessoal daqueles que se esforçam pela continuidade e pela transmissão de valores que nos mantêm honestos e autênticos em um mundo cada vez mais impessoal.
Dizer-se conservador é afirmar respeito à tradição e ao senso de continuidade. Vejo muitos que se orgulham dessa autodeclaração, mas ignoram por completo o que a tradição de fato significa. Talvez resida aí uma das razões do fracasso da direita: ao não compreender propriamente o que é a tradição, acaba por devorar e consumir sua fé em princípios e pessoas erradas.