Era eu!

Carlito Cunha

CRÔNICA - Carlito Cunha

Data 07/04/2026
Horário 06:30

Quando criança, eu gostava de passar as férias escolares em Presidente Prudente, na casa dos Ciabattari, meus avós maternos. Uma das coisas que me marcou bastante foi o perfume das frutas, quando passava pela porta do Mercado Municipal, na esquina da Praça Nove de Julho. Em Salto Grande, não tinha Mercado Municipal e poucas pessoas, vez ou outra, compravam em Ourinhos alguma maçã ou pera. E quem as comprava era rico ou doente. 
Nossas frutas eram as comuns: manga, laranja, mexerica, banana etc... Em uma dessas vezes que fui a Presidente Prudente, meus primos me convidaram para ir ao local onde estavam construindo a Apea (Associação Prudentina de Esportes Atléticos). Tenho a impressão de que começaram sua construção pela piscina, pois é a única coisa que me lembro dali, daquele dia. Como eu morava quase dentro do Paranapanema e sabia nadar, aceitei logo o convite de ir à piscina da Apea. 
A Prudentina foi fundada em 1936. Os diretores se reuniram para estudar a construção do estádio, em 1943, então a minha visita à piscina deve ter acontecido em 1940, quando eu tinha 7 anos de idade. Lembro-me estar de calção de banho (naquele tempo era “calção de banho”), sentado na beira da piscina quando uma menina de, mais ou menos minha idade, se aproximou e “batemos um papo” de gente de 7 anos. O nosso “papo” foi uma pergunta dela e a minha resposta: De onde você é? - Foi a pergunta. De Salto Grande – foi a resposta. Naquele momento os pais a chamaram e ela se foi, lembro-me bem, em um automóvel Chevrolet, talvez modelo 1935, que eu vi saindo e desaparecendo. Nem o nome dela eu fiquei sabendo.
Quando dei baixa do Exército, em 1954, escolhi Presidente Prudente, para começar minha vida. Aceitei o emprego na Melhoramentos Irmãos Brunini.  
Do escritório em que trabalhava nós, os rapazes, víamos a Avenida Manoel Goulart e as meninas que passavam em direção à escola. Sabíamos os horários e descíamos para um café no bar da esquina, nos horários que “coincidiam” com a ida e volta delas. Elas vinham em bando de cinco ou seis, conversando, rindo e flertando com a gente. Um dia marquei um encontro com uma delas, uma moreninha de nome Irene. Iríamos nos encontrar na praça defronte à Estação da Sorocabana. Era uma praça bonita, bem cuidada, bem iluminada, tranquila. Naqueles tempos, 1954, podia-se passear em praças à noite, despreocupadamente.
Preparei-me para o encontro e fui. Andamos pela praça, conversando e resolvemos parar. Sentamo-nos em um dos bancos e, como era o primeiro encontro e a gente não se conhecia ainda, era o momento de nos apresentar melhor, dizer mais do que apenas nossos nomes. Em um determinado momento ela me perguntou:
- Você não é daqui de Prudente. De onde você é?
- De Salto Grande – eu respondi.
E ela me disse: - Uma vez, há muitos anos, conheci um menininho de Salto Grande... Numa piscina... Na Prudentina...
Quase caí do banco.
- Era eu! – foi a única coisa que eu disse, estupefato!
Isso aconteceu num espaço de apenas 14 anos!
 

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