Famílias endividadas em janeiro

OPINIÃO - Walter Roque Gonçalves

Data 18/01/2026
Horário 04:30

Janeiro sempre chega como um choque de realidade para o orçamento das famílias. Depois das festas, viagens e compras de fim de ano, a fatura aparece — quase sempre maior do que a tranquilidade financeira permite. Mas o problema é apenas a falta de dinheiro? Ou das decisões que levaram ao consumo?
O comércio moderno não disputa só preço. Disputa atenção e emoção. Promoções, parcelamentos e compras por um clique são desenhados para ativar gatilhos como merecimento, recompensa, alívio e pertencimento. Compra-se menos pelo que se precisa e mais pelo que se sente. Gustavo Cerbasi afirma que o descontrole financeiro não nasce no bolso, mas na cabeça. Nathalia Arcuri reforça que muita gente compra para aliviar a tensão emocional. Tiago Nigro resume: o dinheiro apenas amplifica quem você já é.
É nesse ponto que entra o conceito do termômetro financeiro. Cada pessoa carrega um padrão invisível que define o que considera “normal” em relação a gastar, poupar ou dever. Esse termômetro é moldado pela infância, pelos exemplos dos pais, pelas crises e pelo ambiente em que se viveu. Ele não muda automaticamente quando a renda aumenta.
Quem ganha R$ 1.000 e guarda R$ 300 tende a manter esse padrão se passar a ganhar R$ 1 milhão. Já quem ganha R$ 1.000 e gasta R$ 1.500 continuará criando dívidas maiores se ganhar mais dinheiro. É por isso que tantos ganhadores de loterias quebram: o dinheiro muda, mas o termômetro financeiro permanece. Tiago Nigro chama isso de identidade financeira; Cerbasi, de padrão de vida inconsciente.
Por isso, o chamado “mundo ideal” não começa quando a pessoa ganha mais, mas quando muda a estrutura interna para lidar com o dinheiro. A lógica correta é simples: primeiro formar reserva e patrimônio, depois separar o dinheiro do estilo de vida e, por fim, pagar os gastos fixos. A soma de tudo deve ser igual à renda, nunca maior. Essa ordem obriga o termômetro financeiro a subir.
O primeiro passo para sair do sufoco é fechar os vazamentos: assinaturas recorrentes, débitos automáticos e compras por impulso. O cartão por aproximação e o “compre agora” são perigosos porque eliminam a dor do pagamento — e, sem dor, o gasto dispara.
Também é preciso organizar as dívidas. Cartão de crédito e cheque especial têm juros brutais. Já IPTU e IPVA têm juros baixos e são parceláveis. Financeiramente, é melhor negociar com o governo do que permanecer no rotativo do cartão. Trocar dívida cara por barata é sobrevivência financeira básica.
O comércio continuará estimulando o impulso. Mas quem decide se vai viver no aperto ou no controle é o próprio consumidor. Quem gasta tudo o que ganha viverá no limite. Quem aprende a gastar menos do que ganha e a guardar um pouco todo mês descobre que, além da renda, a tranquilidade também cresce.

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