Febre

OPINIÃO - Thiago Granja Belieiro

Data 06/06/2026
Horário 04:30

Sentindo intensos calafrios, que faziam seu corpo tremer de forma descontrolada, o jovem, sozinho em casa, sentia-se mal, muito mal. Imagens pululavam em sua cabeça como flashes, e por alguns momentos, chegou ao ponto de ter delírios. Suando na cama, ora via vultos, ora via luzes, e mesmo imagens indistintas pôde vislumbrar. Não sentia medo, a não ser da morte. Essa, aparentemente, não vinha buscá-lo, assim, tão cedo. Mas como poderia saber? Nos delírios da febre alta e intensa até mesmo isso era possível. 
“Não vai ser hoje não, sai pra lá. Tô bem, tô bem, já estou ficando bom, sai fora. Eita, acho que vi algum coisa ali, nossa, eita mano, que que é isso? Nossa, olha lá aquilo!! Sai fora, vou hoje não. Que loucura, será que pirei? Olha lá, olha lá, parece um vulto, umas imagens na parede, tô vendo coisa será? Não não, é isso mesmo, tem alguém ali, não é possível, meu Deus, o que vai acontecer comigo cara!” 
Revirando-se na cama, não se podia dizer exatamente se estava acordado ou dormindo, alternando momentos de vigília e sono profundo. Seu corpo, extenuado pelo combate que travava internamente contra a infecção que o acometia, dava sinais de esgotamento, ao mesmo tempo em que demostrava força sem igual, típica, aliás, de jovens de tão tenra idade e tamanha vivacidade. A intensa luta pela vida escondia o descontentamento crescente com a existência. O corpo físico padece e a alma parece padecer junto. Não é tão fácil viver quando se tem vinte e poucos anos e tamanha responsabilidade diante da vida. As frases desconexas continuavam a pulular em sua mente, tornada insana pela intensa e calorosa febre!
“Acho que tem um coelho ali atrás do armário, parece grande. Nunca vi coelhos antes, o que será isso? Não pode ser, apartamento não tem bicho não. Ontem tinha uma galinha e um gato ali na parede do banheiro, acho que vi. Nossa, tenho medo de bicho não, mas tá esquisito. Aquele dia andei de cavalo, tinha até uma carruagem lá, lembra? Tava eu e a mãe, sentamos no campo depois, conversamos, o pai foi embora e voltou depois. Aquele dia foi bom. Vixe, tem alguma coisa ali no banheiro, deve ser a Carol, faz tempo que não vejo ela lá. Mas ela está em São Paulo! Não pode ser. Um dia saí da escola e vi o Marcos na rua, cara legal. Essas luzes não vão embora nunca. Acordei eu acho”
Levantou, tomou água. Parecia desacordado, confuso. O corpo fraco, tosse seca. Pensou e achou que estivesse sonhando. Vinha triste, fazia alguns dias. Viu o relógio, 3 da manhã. Comeu um pedaço de pão, gosto amargo. Passava a mão na cabeça, sentado na mesa da cozinha. Pensava no que fazer. Não podia ligar pra ninguém àquela hora. Sentia-se sozinho, muito sozinho. Família longe, ninguém em casa. Era forte, um lutador, mas estava triste aqueles dias. A infecção faz isso, mas ele não sabia. Gostava da vida, lutava por ela. Foi deitar novamente, dormiu rápido, mas o sono continuava agitado. 
“Ei, quem vem lá? É você mano? Satisfação revê-lo! Quanto tempo? O que aconteceu? Não se lembra de mim? Sou eu pô, seu mano da escola tá ligado? Altas fitas hein? Tá loco fi. Tô na luta fião, na luta. Tô mal, mas não estou só, meus trutas estão comigo. Todos eles, até mesmo aqueles que eu nem imaginava. Sou querido e nunca ficarei só, firmão e vivendo, guerreiro de fé”. 

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