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Felicidade

Freud em “O mal-estar na civilização” (1930) diz que não conseguimos ser felizes porque nos punimos e tentamos o tempo todo, aliviar o sentimento de culpa inconsciente. Ele fala da precariedade da condição humana, ligada às incertezas do conflito entre pulsão de vida e pulsão de morte que o habita, assim como as suas próprias ilusões.

A felicidade é algo que mais procuramos e menos encontramos. Atribuir a felicidade à posse, podemos? Podemos atribuir ao outro a condição de nos fazer feliz? O que realmente nos satisfaz? Elza Soares fala em sua música que comida e bebida são essenciais. Sabemos que não só de pão vive o homem. Mas sem pão não vivemos. Necessitamos de casa, atenção, água e um teto para morar. Precisamos de alimento. Felicidade é uma moeda rara. Não há espírito que se constitua sem o básico. Ninguém vive para se fazer infeliz.

Conforme Eva Migliavacca, psicanalista, o grande poema épico de John Milton do século XVII traz uma trama muito conhecida que é o paraíso perdido. Lá, onde vivia o casal humano Adão e Eva, existia a felicidade no seu mais alto grau. Era só doçura e ternura. Mas havia uma única recomendação: não podiam alimentar-se do fruto da árvore da ciência.

Era uma proposta de vida estagnada. Satã aparece muito colorido e maravilhoso. Veio desafiar Deus. Saiu do inferno e foi em direção de Eva. Ele reconhece que não pode com Deus, mas desafia o casal, excitando a fantasia e plantando dúvidas no ouvido de Eva. Satã toma forma de serpente e seduz Eva, e argumenta que se comer o fruto da ciência, vai ficar mais inteligente e saberá de tudo. Ela reflete em como ficar mais interessante para Adão. Deixa-se convencer e come do fruto. Deslocando-se de um ambiente de extremo conforto. Adão por amor a Eva, come também.

Daí a felicidade foi se embora. Tudo ficou mais trabalhoso, mas, mais interessante. Conhecimento traz uma maior percepção de mundo, complexidade das diferenças entre pessoas, limites, inquietações, mal estar, crescemos um pouco e saímos parcialmente da infância. Desfaz-se de idealizações onde saímos da altura divina. Transformações trazem grandes problemas. Passamos a viver com aspectos contraditórios.

Como nos movimentarmos com certa desenvoltura, nesse aperto pela vida? Definir felicidade? Acredito que felicidade é uma coisa que não definimos, a gente sente.

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