No final de setembro de 1987, a capital do Estado de Goiás tornou-se o epicentro daquele que viria a ser o maior acidente radiológico da história fora de uma usina nuclear. No centro da resposta emergencial que evitou uma catástrofe ainda maior, estava Walter Mendes Ferreira, um jovem físico de apenas 32 anos que passou a infância e adolescência em Presidente Prudente, de onde partiu para prosseguir com os estudos após concluir a formação básica.
Em entrevista exclusiva ao O Imparcial, Walter relembra os bastidores técnicos e humanos da contenção de um dos maiores desastres radiológicos da história e o impacto profundo que o episódio causou na regulamentação da segurança nuclear em todo o planeta.
Toda esta história, com um incremento de “dramatização”, é contada na série “Emergência Radioativa”, lançada pela Netflix em março. Nela, Walter é retratado como Márcio, personagem interpretado pelo ator Johnny Massaro.
Nascido em Minas Gerais, Walter mudou-se com sua família para o Estado de São Paulo ainda na infância. Após uma breve passagem por Presidente Epitácio, a família fixou residência em Presidente Prudente, no ano de 1970. A ligação do físico com a cidade é profunda: são 56 anos de história familiar no município onde ele concluiu sua formação básica. Tanto que sua irmã, Vânia Nilva Ferreira, hoje chefe do administrativo deste diário, compõe o quadro de colaborares de O Imparcial há mais de 50 anos.
“Minha juventude e adolescência foram vividas aqui. Sinto-me muito feliz em retornar à minha terra natal e poder falar para o meu povo”, destacou o físico. Ele deixou Prudente para seguir carreira na física e na engenharia, realizando estudos de pós-graduação no Rio de Janeiro e na Universidade de Buenos Aires, na Argentina.
Mais tarde, estabeleceu-se profissionalmente em Goiânia, realizando levantamentos radiométricos para a Fundação Estadual do Meio Ambiente, experiência técnica que se provaria crucial no fatídico ano de 1987.
No dia 28 de setembro de 1987, Walter chegou a Goiânia vindo de São Paulo, onde realizava cursos especializados. O motivo da viagem era o aniversário de seu pai, comemorado no dia 29. No entanto, o que deveria ser uma celebração familiar transformou-se no início de uma operação de guerra radiológica. Às 7h30 da manhã daquele dia 29, o físico recebeu uma ligação telefônica de Jader de Araújo Pires, então superintendente da Fundação Estadual do Meio Ambiente.
Jader relatou que, durante uma reunião social na noite anterior, o diretor do Hospital de Doenças Tropicais revelara sua profunda preocupação com 11 pacientes internados. As vítimas apresentavam sintomas graves e idênticos: vômitos constantes, febre, diarreia e uma severa queda de cabelo.
Sem conseguir fechar um diagnóstico médico clássico para aquela comorbidade, levantou-se a hipótese de envenenamento por radiação. “Eu expliquei que aqueles sintomas eram característicos da Síndrome Aguda da Radiação, que ocorre quando o corpo humano recebe doses extremamente elevadas de energia nuclear. No entanto, inicialmente eu não acreditava que houvesse material em Goiás com potencial para causar tal estrago”, relata Walter.
Pouco depois, o médico responsável pelo caso, Alonso Monteiro, ligou diretamente para o físico, confirmando o quadro clínico e informando que uma das pacientes, Maria Gabriela, havia levado uma peça metálica suspeita até a Vigilância Sanitária Municipal, acreditando ser ela a fonte da intoxicação familiar.

Foto: Cedida/Walter Ferreira - Acidente radiológico ocorreu em Goiânia, no final de setembro de 1987
Para verificar a veracidade da suspeita, Walter precisava de um detector de radiação. Como não possuía o equipamento em mãos, ele acionou contatos na Nuclebras (atual Indústrias Nucleares do Brasil), empresa voltada à prospecção de urânio. Com o auxílio de dois sanitaristas da Vigilância Sanitária, o físico conseguiu o empréstimo de um cintilador francês de alta precisão e robustez.
Ao se aproximar do prédio da Vigilância Sanitária, onde a peça estava guardada, o bico sonoro do aparelho começou a disparar a uma distância de 60 a 70 metros do local. Segundos depois, os ponteiros atingiram o limite máximo e o equipamento travou.
“Tecnicamente, aquilo significava duas coisas: ou o cintilador estava com defeito ou estávamos diante de um campo de radiação assustadoramente intenso. Minha primeira reação, por uma questão de autodefesa psicológica, foi achar que o aparelho estava quebrado”, relata o físico.
Ele retornou imediatamente à Nuclebras para confrontar o diretor, que rebateu a suspeita de defeito, desafiando o jovem físico. Juntos, realizaram um teste de aferição utilizando uma fonte padrão de baixa intensidade de Césio. O equipamento respondeu corretamente, provando estar calibrado. Ao retornar à Vigilância Sanitária com o detector ligado, a saturação se repetiu no mesmo ponto da rua. Não restavam dúvidas: Goiânia estava sofrendo um grave acidente nuclear.

Foto: Cedida/Walter Ferreira - Trata-se do maior acidente radiológico da história fora de uma usina nuclear
A gravidade da situação se intensificou quando Ferreira deparou-se com três integrantes do Corpo de Bombeiros saindo do prédio da Vigilância Sanitária. Um deles carregava o cilindro metálico contaminado dentro de um saco plástico. “Ele me disse textualmente que iria jogar aquela peça no Rio Capim Puba para se livrar do problema. Eu ordenei imediatamente que ele deixasse o material onde estava, explicando que se tratava de substância altamente radioativa e perigosa”, rememora. A intervenção evitou a contaminação catastrófica do principal curso de água da região.
Diante da resistência inicial das autoridades sanitárias locais em evacuar o prédio, o Corpo de Bombeiros agiu com profissionalismo, isolando a rua. Walter passou então a investigar a origem da peça. Descobriu que ela havia sido levada de um ferro velho local dois dias antes. Ao se deslocar até o estabelecimento, o detector começou a registrar forte atividade radioativa ainda no início do quarteirão. A dispersão dos sinais indicava que o material não estava confinado: havia se espalhado em forma de pó.
No ferro velho, o físico conversou com os catadores de papel Admilson e Israel, que posteriormente viriam a falecer em decorrência da radiação. Eles revelaram que o proprietário Devair havia comprado o cilindro de dois rapazes que o removeram de uma clínica abandonada, o Instituto Goiano de Radioterapia. Walter conhecia os médicos proprietários e foi ao encontro de um deles no hospital de referência da cidade. Ao ser informado, o médico insistiu que seria impossível a remoção, dado que o cabeçote de proteção pesava quase 400 quilos. Uma vistoria conjunta ao prédio em ruínas confirmou o pior: a cápsula protetora fora violada e a fonte de Césio-137 havia sumido.

Foto: Cedida/Walter Ferreira - Durante investigação, Walter percebeu que material havia se espalhado em forma de pó
Por volta das 13h30 daquele dia 29 de setembro, Walter iniciou as ligações para as autoridades federais. Contatou primeiro o Ipen (Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares) em São Paulo e, em seguida, ligou para a diretoria da Cnen (Comissão Nacional de Energia Nuclear), no Rio de Janeiro, falando com o diretor José Júlio Rosental. Inicialmente, houve profundo ceticismo na capital fluminense. “Eles achavam que um físico de Goiânia estava falando bobagens. Foi preciso colocar o proprietário da clínica na linha para que compreendessem o tamanho da crise”, explica Walter.
O secretário de Saúde de Goiás conduziu o físico imediatamente ao Palácio das Esmeraldas para uma audiência com o governador da época. Por coincidência técnica, ele era médico e possuía curso de extensão em higiene das radiações, compreendendo o perigo de imediato. O governador acionou o Gabinete Militar e decidiu transformar o antigo Estádio Olímpico da cidade no quartel-general da triagem de emergência. Às 20h30, as primeiras operações de evacuação forçada foram iniciadas sob o comando técnico de Walter.

Foto: Reprodução/Netflix - Walter é retratado como Márcio, personagem do ator Johnny Massaro, em série da Netflix
As equipes de resgate, utilizando ônibus e viaturas forrados internamente com plástico para conter o espalhamento do material, recolheram o dono do ferro velho e os catadores de papel às 20h30. Em seguida, às 22h30, moveram-se para o segundo ferro velho da família, pertencente ao irmão de Devair. Foi ali que Walter presenciou uma das cenas mais marcantes do desastre: a menina Leide das Neves Ferreira, de apenas 6 anos, saindo de casa abraçada a um travesseiro.
“O físico do hospital, Flamarion, tentava medir a radiação nela com um dosímetro de alta escala, mas os valores eram inacreditáveis. O pai havia deixado cair o pó brilhante na mesa de jantar e ela ingeriu o Césio com o pão. Ela era uma fonte humana ambulante de radiação”, relata.
Naquela primeira noite, 26 pessoas foram isoladas no Estádio Olímpico. Na madrugada do dia 30 de setembro, José Júlio Rosental desembarcou em Goiânia com técnicos da Cnen. Juntos, realizaram novas medições na Vigilância Sanitária e constataram níveis de radiação severamente proibitivos para qualquer atividade humana padrão. Diante do risco iminente, as autoridades decidiram, no dia 30, concretar emergencialmente a cadeira e o cilindro.

Foto: Ector Gervasoni - Atualmente, Walter ministra palestras sobre o assunto; nesta semana, esteve na Unoeste
O Hospital Geral de Goiânia teve uma ala inteira evacuada para receber as dezenas de pacientes triados. As primeiras medidas consistiram em banhos intensivos com sabão neutro para remover a contaminação externa antes do início dos tratamentos internos. Casos graves foram transferidos para o Hospital Naval Marcílio Dias, no Rio de Janeiro, referência no tratamento de acidentes nucleares. No primeiro dia de caos, Walter, sozinho, identificou e isolou sete dos oito focos principais de contaminação na cidade.
Cinco dias após o início da crise, o físico viajou ao Rio de Janeiro para submeter-se ao exame de corpo inteiro no Instituto de Radioproteção e Dosimetria. Os testes comprovaram que, diferente do retratado na série, ele não incorporou o material, sofrendo apenas uma baixa dose de irradiação externa equivalente a duas vezes o limite anual do trabalhador nuclear, sem riscos à saúde. Sua esposa, grávida à época, sofreu um aborto natural meses depois, o qual foi clinicamente atestado como sem relação com o desastre.
O acidente de Goiânia ocorreu apenas um ano após a tragédia da Usina de Chernobyl, na Ucrânia, e serviu para reformular integralmente os protocolos da AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica). Cientistas americanos, franceses e soviéticos desembarcaram no Brasil, transformando o caso goiano em um laboratório vivo sobre o comportamento do Césio no meio ambiente e o tratamento médico de vítimas de radiação. A tragédia gerou 6 mil toneladas de rejeitos a partir de meras 19,6 gramas de cloreto de césio, evidenciando o poder devastador de dispersão do pó.
Contratado em definitivo pela Cnen, onde atualmente é chefe da Divisão de Emergências Radiológicas, logo após o episódio, Walter, que hoje vive no Rio de Janeiro, dedicou as décadas seguintes ao treinamento de equipes de pronto-socorro nuclear em todo o mundo. Atualmente, quase 40 anos mais tarde, com o lançamento da série, ele retoma o assunto, através de palestras além do Brasil, orientando os jovens e também profissionais, como outros físicos, médicos, engenheiros.
Para o físico, a maior lição de Goiânia reside no preparo técnico e psicológico: “A radiação não tem cheiro e não pode ser vista. Responder a uma emergência dessas exige seguir os procedimentos passo a passo, friamente, mantendo a precisão científica acima do pânico. Esse foi o legado que deixamos para o mundo”, contou o físico.

Foto: Ector Gervasoni - Walter entre os irmãos; Vânia é parte da equipe de O Imparcial