Foram cinco anos

António Montenegro Fiúza

No djunta
na sabi.
No djunta
kassabi.
Na um mon
no fidi
fidida
k fidi
no tchon.

Juntemo-nos
Nos momentos bons
Juntemo-nos
Nos momentos maus
Numa mão
Nos ferimos
ferida
que sangra
no chão.
Flaviano Mindela dos Santos, Ermondadi /Irmandade

Foram cinco anos – quem me dirá se foram longos ou curtos os anos? Intensos, sem sombra de dúvidas! Cinco anos vividos na Guiné-Bissau. A quê lhes poderia comparar senão a uma jornada odisseica por um mundo novo? Habituado aos ares europeus, às quatro estações do ano, às paisagens mediterrânicas, conhecer o país consistiu numa viagem por um novo continente, uma experiência irrepetível, numa realidade singular.
Guiné – Bissau tem história, tem mundos mágicos habitados por seres ainda mais mágicos: fulas, balantas, manjacos, mandingas, e papéis, mulheres e homens fortes, parcimoniosos de natureza, pujantes nos afetos, hospitaleiros e zelosos; indivíduos de riso fácil, vibrante e caloroso, cujo traço mais veemente é a irmandade, entre si e para todos quantos partilhem do espaço da sua tabanka. Gente sincera e de índole irrepreensível, gente que vive a terra, vive o mar, vive a cidade e vive a Guiné.
A descoberta do país faz-se por entre praias e areais lindíssimos, invulgares na sua beleza e calmaria, planícies enormes, povoadas por florestas tropicais e savanas, rios com mangais e arrozais. Fez-se em passeios arriscados, por terras habitadas por possantes crocodilos, serpentes, gazelas, leopardos, macacos, hienas, flamingos e pelicanos.
A cada passo, aprende-se uma canção nova, um som e ritmo ímpares, na terra batida, na mata, na areia, no céu. A terra é fértil, pródiga em caju, mandioca, côco, dendê, arroz e manga – oh cumi sábi (oh comida boa). E quando faz sol, queima a pele, naquele calor meigo que aquece a alma.
O país que me acolheu por cinco anos, que se fez terra – mãe de um filho adotado, é terra que prende, que hipnotiza, onde se dança o gumbé, onde se festeja ao som dos batuques, com trajes coloridos e alegres, coreografias envolventes e retumbantes; onde se dançam os casamentos, as colheitas, os funerais e a iniciação na vida adulta.
Quem canta a alegria e a esperança, também canta a dor de um povo marcado pela cicatriz de armas, de mãos calejadas por sucessivas lutas internas, de olhos marejados de lágrimas. Quem canta, canta a força e a esperança, canta a necessidade de continuar, de não esmorecer frente às agruras da vida.

«Si bu sta dianti na luta, ai // Pasa diante po» 
«Em frente à luta, vai // Passa adiante e vai»

 


 

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