Formar profissionais para cuidar de pessoas

OPINIÃO - Aline Duarte Ferreira

Data 11/06/2026
Horário 04:30

Durante muito tempo, a formação universitária foi associada quase exclusivamente ao domínio técnico e científico. E, de fato, os livros, as pesquisas científicas, os laboratórios e o conhecimento produzido pela ciência são fundamentais para a formação de bons profissionais. Nenhuma atuação responsável pode existir sem estudo, aprofundamento e conhecimento técnico. Mas a formação profissional não se constrói apenas nisso.
Existem aprendizagens que acontecem quando o estudante encontra pessoas reais, escuta histórias de vida, convive com diferentes realidades e compreende que, por trás de cada diagnóstico, existe um ser humano com medos, limitações, inseguranças e expectativas. Na área da saúde, isso se torna ainda mais evidente. A técnica é indispensável. O conhecimento científico e a prática baseada em evidências orientam condutas, decisões e tratamentos. Porém, humanizar o cuidado significa compreender que o atendimento não deve enxergar apenas a doença, mas também a pessoa que vive aquela experiência.
Talvez seja exatamente nesse ponto que a extensão universitária ganhe tanta importância. Ela aproxima os estudantes da comunidade e permite que a formação acadêmica dialogue com a realidade social. O conhecimento aprendido em sala de aula encontra sentido na prática, enquanto os estudantes desenvolvem habilidades que vão além da técnica.
Outro aspecto importante dessas experiências é a interdisciplinaridade. A vida real não acontece dividida em disciplinas ou especialidades, e os desafios enfrentados pelas pessoas exigem diferentes olhares trabalhando de forma integrada. Na área da saúde, o cuidado raramente depende de apenas um profissional. Médicos, fisioterapeutas, enfermeiros, psicólogos, nutricionistas, terapeutas ocupacionais e tantos outros profissionais precisam dialogar constantemente para oferecer um cuidado mais completo e humanizado.
Como fisioterapeuta que atua na área da reabilitação neurológica, percebo diariamente o quanto essa visão ampla faz diferença. Muitas vezes, o sucesso do tratamento depende não apenas de uma técnica, mas da capacidade de compreender o paciente em sua totalidade, dialogar com outros profissionais e orientar cuidadores e familiares que também fazem parte do processo de reabilitação.
É justamente essa perspectiva que procuro levar para minha prática docente. Aquilo que vivencio como fisioterapeuta também compartilho com meus estudantes: a importância da escuta, do trabalho em equipe, da comunicação e do olhar humanizado. O conhecimento técnico e científico continua sendo essencial, mas se torna ainda mais potente quando aliado à colaboração entre diferentes áreas e à compreensão de que estamos lidando com pessoas e histórias de vida reais.
Por isso, a universidade contemporânea tem sido cada vez mais desafiada a formar profissionais capazes de trabalhar em equipe, respeitar diferentes saberes e desenvolver habilidades como comunicação, empatia, liderança, escuta e resolução de problemas — competências hoje conhecidas como “soft skills” e cada vez mais valorizadas no mundo do trabalho.

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