George

OPINIÃO - Thiago Granja Belieiro

Data 18/07/2026
Horário 04:30

George andava estranho desde sua chegada ao Brasil. Com temores recorrentes, que o afligiam desde seu primeiro dia no país, o rapaz não podia senão andar assustado, levando pequenos sustos e sofrendo de sobressaltos constantes a qualquer possibilidade de um encontro fortuito. Evitava passar sob as árvores, o que lhe causava inúmeros transtornos em seu deslocamento diário até a universidade, uma vez que precisava desviar delas o tempo todo. Nas esquinas, via-se aflito, pois nunca poderia saber exatamente de onde viriam. Redobrava os cuidados quando percebia estar próximo de pequenas áreas de mata, parques ou praças. 
A excessiva diligência de George parecia parte integrante de uma verdadeira ideia fixa, talvez há muito inculcada em seu inconsciente. Uma vez aqui, não podia senão ser obrigado a ter de lidar com ela. Procurava em toda a parte, sempre com medo, mas não vira nada até agora. Seus colegas notavam seu estranho comportamento, entretanto, como tinha severas dificuldades com a língua portuguesa, George não conseguia expor suas razões com clareza. De todo modo, notavam nele certa tendência obsessiva que parecia preocupante, muito embora ele mesmo não pudesse perceber. 
Na pequena casa que alugara, George foi redobrando certos cuidados que vinha tendo desde sua chegada. Nunca abria as janelas. Quando chegava da rua, inspecionava todo o imóvel à procura de visitantes, mesmo nos lugares de mais difícil acesso. Mantinha cuidados redobrados com restos de comida, cascas de frutas e vegetais, assim como o lixo. Embora seu muro fosse bastante alto, achou por bem investir seus recursos emergenciais para a colocação de cercas elétricas. Seu anfitrião estranhou o pedido, mas acabou concordando quando George disse que assumiria os custos com prazer. 
O caminho que leva da ideia fixa à obsessão é bastante curto e George parecia seguir firme nessa direção. Preparava-se como podia para o fatídico encontro, e cansado de esperar, após três semanas no país e sem nenhum avistamento, decidiu que deveria procurá-los. Tentou os belos e arborizados parques da cidade, onde encontrou senão pequenos pássaros, alguns exóticos, mas ainda assim inofensivos. Passou a sair à noite com mais frequência, convicto que encontraria aqueles com hábitos noturnos. Mais uma vez, sem sucesso algum. 
Após estreitar laços com um dos colegas e ser convidado a visitar a fazenda de sua família, George ficou bastante empolgado, apesar de seus temores, pois entendeu que no campo finalmente os encontraria. Uma vez na fazenda, George vira apenas porcos, galinhas, vacas, carneiros e animais dessa natureza, digamos, doméstica. Como tais pensamentos nunca os abandonava e semelhante obsessão fazia com que seu comportamento se alterasse entre momentos de excitação e medo, resolvera, finalmente, perguntar ao seu novo amigo a respeito dessa ideia fixa sistematicamente elaborada pelos seus compatriotas e trazida de sua terra natal. “Afinal, onde estão os animais selvagens?” 
 

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