Geraldo é um homem bruto, coração de pedra, hábitos simples, rigoroso ao extremo, sem delicadezas ou finuras. Toma cachaça pura, sem limão, sem acréscimos e sem rodeios, de uma golada só. Não faz careta, antes disso, demonstra satisfação a cada gole, como se tomasse um suco adocicado. Ao comer, invariavelmente o faz com garfo e uma enorme faca, dessas da lida, com a qual corta enormes nacos de carne. Com a mesma faca corta o fumo, enrola o cigarro de palha, limpa as unhas. É a ferramenta do dia a dia, sempre a postos, na bainha, presa à cinta.
O interior de São Paulo pode ser um lugar rude, de certa bruteza, vida dura e homens duros, como Geraldo. O trabalho no campo, as pequenas cidades, a distância das capitais, a história de trabalho e luta para desbravar os então chamados sertões parece deixar marcas indeléveis no caráter de seus habitantes. Crescer e viver entre Anastácio, Mirante e Costa Machado fez recrudescer semelhantes características em Geraldo. Nunca chorou, talvez quando criança pequena, mas não se lembra. Nunca pegou os filhos no colo, e pode-se dizer que deu poucos abraços na esposa, a quem nunca disse palavras sensíveis.
Certa vez, em que tomava cachaça no bar do Zé, em Mirante, foi interpelado por um desconhecido, que aparentemente bêbado, dizia nunca antes ter visto lugar tão feio e pobre na vida. Falava alto, gesticulava, contava de lugares que visitou, enaltecia certas paragens e depreciava outras, e reafirmava, com certo prazer, que aquele era o lugar mais feio que tinha visto na vida. Poucos se importavam e muitos dos presentes, que apenas fumavam e tomavam suas cachaças, até riam das piadas depreciativas do sujeito em relação ao lugar de suas vidas.
Geraldo seguia impassível e aquela conversa aparentava não o incomodar, de modo algum. O desconhecido não se fez de rogado e continuava a proferir impropérios acerca do lugar. De repente, voltou-se a Geraldo, dizendo:
___ E você companheiro, o que acha? Perguntou em tom de deboche, deliberadamente. Geraldo escutou, tomou um gole leve do que restava do copo de cachaça e então disse:
___ Eu gosto mesmo é de Costa Machado, porque lá a gente toma pinga com escorpião. No Mirante não tem isso não.
O desconhecido riu descontroladamente. Geraldo continuava olhando fixamente para ele, sem dizer palavra. O homem quis começar a falar, fazer piadas, e quando ia perguntar da pinga com escorpião, Geraldo, em um movimento rápido e preciso, puxou a faca e colocou no pescoço do homem. Os presentes se surpreenderam, mas pouco e nenhum deles sequer se levantou. Continuaram tragando seus cigarros e observando a cena. Com a ponta da faca encostando fundo no pescoço do homem, Geraldo disse:
___ O senhor respeita o lugar. Aqui a gente não aceita desfaçatez de desconhecido. Eu só não te mato agora porque vai dar trabalho pra te enterrar ali pra baixo e não quero cavar cova pra sem-vergonha uma hora dessas. O senhor pega suas coisas e vai se embora daqui pra nunca mais voltar.