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Germano Almeida 

António Montenegro Fiúza

«A gente cria a partir da realidade em que vivemos. As pessoas inspiram-nos estórias e, às vezes, inspiram estórias de modo contrário. Isto é, alguém inspira uma história que é ao contrário da dessa pessoa.» Germano Almeida 

Em missão na Cidade do Mindelo, na belíssima Ilha de São Vicente – Cabo Verde, entre pessoas alegres e hospitaleiras, as quais nos recebem com a singular morabeza, surgiu a mais grata recordação de bons e acolhedores momentos, em conversa com o Dr. Germano Almeida.
Para além de simpaticíssimo e de uma inteligência surpreendente, Germano Almeida é um dos escritores cabo-verdianos mais conhecidos a nível do mundo lusófono, e um pouco por todo o planeta: escreveu 17 obras, entre romances e contos, e foi o merecido vencedor do Prêmio Camões de 2018 – o prêmio máximo que consagra a literatura portuguesa contemporânea. 
Com humor, sátira e crítica social, o autor retrata o quotidiano das ilhas, as suas gentes, nas pobrezas e nas riquezas de uma vida resiliente, daqueles que foram plantados no meio do Atlântico e que lutam contra as intempéries e a seca persistente. Jurista de profissão, exerceu em várias ilhas e percorreu o íntimo do viver e do ser cabo-verdiano, em todas as suas nove facetas, tantas quantas as ilhas habitadas do arquipélago.
Num país onde a língua materna é o crioulo cabo-verdiano, escreve em português – reconhecendo a grande importância que o uso desse idioma tem no contato com o mundo exterior e no conhecimento do mundo; no entanto, não se coíbe de introduzir, a páginas tantas, palavras, expressões e frases inteiras em crioulo, realçando o aspecto da vivência diária, dando vida a cada um dos seus personagens, os quais são (ou podem ser!) inspirados em pessoas reais, que passeiam e vivem nos ilhéus.
De todas as obras deste douto contador de histórias, uma das mais interessantes e mais conhecidas será “O Testamento do Senhor Napumoceno da Silva Araújo”, adaptada para cinema por Francisco Manso – realizador português e que contou, no seu elenco, com a afamada e saudosa cantora cabo-verdiana Cesária Évora, e com atores brasileiros de renome, como sejam: Nelson Xavier, Milton Gonçalves e Zezé Motta. 
Ao contrário do que aconteceu com a Torre de Babel, a produção do filme foi agraciada com a existência de uma língua comum, a qual possibilitou um trabalho riquíssimo e premiado internacionalmente. 
Caminhando pela Praia da Laginha, os pés são banhados singela e suavemente pelo Oceano Atlântico, o mesmo que transportou nobres e intrépidos marinheiros, nas suas viagens épicas e que une a maior parte da lusofonia nas suas águas, num abraço cálido. 
 

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