Gramática canina

OPINIÃO - Raul Borges Guimarães

Data 18/01/2026
Horário 05:00

Houve um tempo em que o mundo ainda não estava separado em gavetas: natureza de um lado, cultura do outro. Nesse tempo pré-histórico, um lobo rondava o fogo. Um ser humano deixava restos. Entre o medo e a curiosidade, nasceu uma vigília compartilhada. Naquela época, domesticar não foi vencer. Foi aprender a ficar perto. O animal se aproximou porque o cheiro do alimento era mais forte que o medo. O ser humano ficou porque percebeu que aquela presença alheia também guardava, aquecia, alertava. No dia seguinte, de novo. Até que o estranho virou familiar.  
Quando os seres humanos deixaram de andar sem rumo e começaram a plantar, os animais também tiveram de aprender a esperar. A cabra, a ovelha, o boi passaram a reconhecer cercas, vozes, horários. Em troca, receberam abrigo e cuidado. Era um pacto silencioso: vocês ficam, nós cuidamos. Vocês nos alimentam, nós garantimos amanhã. Mas não se tratava só de utilidade. Havia algo de sagrado no gesto de conduzir um animal, de tocar seu corpo vivo, de reconhecer nele uma força que não se controla por inteiro. Por isso, quando a vida precisava ser devolvida, o gesto vinha acompanhado de palavras, rituais, silêncio. O animal não morria como coisa. Morria como passagem. O bode que levava os pecados para o deserto, o cordeiro escolhido entre os melhores do rebanho, o boi que puxava o arado e sustentava a aldeia — todos eles ensinavam que viver é carregar peso, produzir sentido, participar de algo maior. Nele, o humano via sua própria condição: nascer sem pedir, viver sem garantia, morrer sem escolha. E foi assim que os seres humanos aprenderam a falar com o sagrado por meio dos animais. O animal nunca foi apenas alimento. Que digam as tradições judaicas, islâmicas, cristãs. Que cantem os ritos religiosos afro-brasileiros. Sim, os animais foram, desde sempre, nossos intérpretes do sagrado. E talvez ainda sejam.  
Com o tempo, muita gente perdeu essa gramática. As cercas ficaram mais altas, os galpões mais fechados, os números substituíram os nomes. O animal virou lote, estatística, mercadoria. Já não há encontro, apenas fluxo. Talvez seja hora de reaprender. Lembrar que, ao domesticar os animais, domesticamos também nossos excessos, nossa fome sem freio, nossa ilusão de soberania. 
Li em voz alta o que acabara de escrever para o Toddy, que passou a tarde inteira procurando os meus pés e pedindo, incansavelmente, mais carinho. Trocamos olhares e pelo rabo abanando do meu cão, compreendi que estava autorizado a encaminhar a nova crônica para o jornal. 
 

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