Haboob

OPINIÃO - Thiago Granja Belieiro

Data 07/10/2021
Horário 04:30

O colunista da Folha de São Paulo, Reinaldo José Lopes, escreveu, na última semana, ter vergonha de ser do interior paulista. A afirmação ocorreu após as tempestades de areia, conhecidas como haboob, terem ocorrido em diferentes locais do Estado, trazendo medo, destruição e mortes. Palavra de origem árabe e que deriva de habb, ou vento, haboob é palavra típica do Sudão e do Saara, e, desde a sexta feira, tornou-se familiar ao vocabulário dos prudentinos. 
Não acho que devemos ir tão longe quanto o colunista de Franca, mas, o cito aqui porque sim, devemos ter vergonha da nossa história, sobretudo do nosso passado ambiental, que nos faz lamentar nosso presente e nos ajuda a compreender esse fenômeno climático. 
Até o início da década de 1920, toda a região oeste do Estado de São Paulo era coberta por uma majestosa floresta tropical, a mesma famosa Mata Atlântica, cujos remanescentes podem ser encontrados no litoral paulista e por aqui, na reserva ambiental do Morro do Diabo. A imensa cobertura florestal foi sistematicamente derrubada para dar lugar, primeiro, aos cafezais, mais tarde, à cultura do algodão, do feijão, do amendoim, e mais recentemente, da cana de açúcar e dos eucaliptos. 
Lopes citou em seu artigo um livro fundamental para a compreensão desse processo histórico de destruição da Mata Atlântica e da degradação ambiental que resultou. Trata-se da obra do historiador estadunidense Warren Dean intitulada “A Ferro e Fogo: a história e a devastação da Mata Atlântica brasileira”, publicada em 1996. Com muita erudição e dados estatísticos, biológicos, demográficos, topográficos, geográficos e históricos, o autor mostra com clareza o triste processo de destruição desse importante bioma nacional. 
Paradoxo histórico terrível, pois esse passado de destruição ambiental é o mesmo passado que explica a chegada dos imigrantes, europeus, asiáticos e de diferentes regiões do Brasil, que para cá vieram para o trabalho nas lavouras e para a construção de uma das regiões economicamente mais ricas do país. 
No artigo de Lopes, com o qual dialogo aqui, ele cita uma frase de Warren Dean que dispensa maiores explicações. “Crianças, vocês vivem em um deserto. Vou lhes contar como foram deserdadas”.
 

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