Intestino não é “segundo cérebro”

Jair Rodrigues Garcia Júnior

Recentemente vi uma imagem de uma panturrilha com a frase que os músculos dessa região são o “segundo coração”. Então me lembrei dessa outra afirmação de que o intestino é o segundo cérebro. Curioso que não apenas jornalistas criam manchetes sensacionalistas. Há também alguns cientistas que buscam causar impacto com suas afirmações para que fiquem em evidência.

FUNÇÕES ESPECÍFICAS
Nosso corpo possui 11 sistemas fisiológicos mais o fígado. Desde o tegumentar (pele) até o nervoso (cérebro, tronco encefálico e medula), cada sistema tem funções específicas. Alguns sistemas têm funções que se complementam, como os ossos e músculos na sustentação e movimento. Além das glândulas endócrinas, outros tecidos e órgãos secretam hormônios. Neurônios e nervos estão presentes em órgãos e tecidos, porém isso não faz deles “cérebros adicionais”.  

SISTEMA NERVOSO
O cérebro é muito mais que um conjunto de neurônios e nervos, pois tem funções sensoriais (sabor, odor, tato etc), motoras (contração muscular), controle de outros sistemas, órgãos e tecidos, de resposta e adaptação ao estresse e, sobretudo, as funções superiores, que são atividades cognitivas complexas, tais como memória, linguagem, aprendizagem, planejamento, tomada de decisão etc. Quando o “intestino crescer” e desempenhar ao menos metade destas funções, talvez possa ser chamado de “segundo cérebro”.

COMPLEXIDADE
O trato gastrintestinal (TGI – esôfago, estômago e intestino) possui terminações nervosas, secreta neurotransmissores, muco e peptídeos com efeitos de hormônios. Entre eles o peptídeo semelhante ao glucagon (GLP-1) e polipeptídeo insulinotrópico dependente de glicose (GIP), que são mimetizados por medicamentos contendo semaglutida e tirzepatida. Suas terminações nervosas, neurotransmissores e peptídeos permitem a conexão e regulação de outros sistemas fisiológicos, órgãos e tecidos. Porém, fica distante muitos degraus das funções de cérebro.

TGI E SISTEMA IMUNE
A parede do TGI representa uma barreira defensiva contra a entrada de patógenos no meio interno (sangue e células), juntamente com o grande número de células do sistema imune. Por isso, é importante a manutenção da “saúde intestinal”, representada pela população de bactérias (microbiota intestinal) e molécula produzidas, que interferem diretamente na eficiência do sistema imune e controle do estado de inflamação sistêmica crônica. Essa interdependência ente sistema digestório (TGI), sistema imune e endócrino é essencial para saúde.


CUIDE DA MICROBIOTA
Cuidar da “saúde intestinal” mantendo a biose – predomínio de bactérias benéficas – deve ser uma meta básica para manter a saúde como um todo. A biose garante a inter-relação eficiente do TGI com o sistema nervoso, sistema imune e outros, mantendo o controle metabólico e outras funções. A manutenção da microbiota saudável (biose) depende do consumo de laticínios fermentados e vegetais, além da eliminação ou diminuição do consumo de alimentos ultraprocessados. Deixe de lado essa besteira de “segundo cérebro” e foque nesse aspecto realmente relevante que é a “saúde intestinal”.


Importante é a manutenção da “saúde intestinal”, representada pela população de bactérias (microbiota) e molécula produzidas.


Referências

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