Intolerância selvagem

Estamos testemunhamos um mal estar constante na civilização. Assistimos injustiças, preconceitos, indiferenças e um racismo repetitivo. O retorno do selvagem e a ausência do direito à diversidade se fazem constantes. 
Segundo Umberto Eco (filósofo, medievalista, semiólogo, crítico literário e midiólogo), em seu livro “Migração e Intolerância”, o problema da intolerância é mais profundo e mais perigoso. E refere-se ao fundamentalismo, integrismo, racismo pseudocientífico, que são posições que pressupõem uma doutrina.
Dividindo com os leitores um pouco de seu pensamento, “A intolerância coloca-se antes de qualquer doutrina. Nesse sentido, a intolerância tem raízes biológicas, manifesta-se entre os animais como territorialidade, baseia-se em relações emocionais, muitas vezes superficiais. Não suportamos os que são diferentes de nós porque tem a pele de cor diferente, porque falam uma língua que não compreendemos, porque comem rãs, cães, macacos, porcos, alho, porque são tatuados... A intolerância em relação ao diferente ou ao desconhecido é natural na criança, tanto quanto o instinto de se apossar de tudo o que deseja. A criança é educada para tolerância pouco a pouco, assim como é educada para o respeito à propriedade alheia - antes mesmo do controle do próprio esfíncter. Infelizmente, se todos chegam ao controle do próprio corpo, a tolerância permanece um problema de educação permanente dos adultos, pois na vida cotidiana estamos sempre expostos ao trauma da diferença. Os estudiosos ocupam-se com frequência das doutrinas das diferenças, mas não o suficiente da intolerância selvagem, pois esta foge a qualquer definição e abordagem crítica”. 
Ele fala sobre o desafio que é educar para a tolerância adultos que atiram uns nos outros por motivos étnicos e religiosos. Diz ser tempo perdido, tarde demais. E ainda, “A intolerância selvagem deve ser, portanto, combatida em suas raízes, através de educação constante que tenha início na mais tenra infância, antes que possa ser escrita em um livro, e antes que se torne uma casca comportamental espessa e dura demais”.
O autor sustenta que “a compreensão mútua entre culturas diversas não significa avaliar a que o outro deve renunciar para se tornar igual, mas compreender mutuamente o que nos separa e aceitar essa diversidade”. E apresenta argumentos para demonstrar que “eliminar o racismo não significa demonstrar e se convencer de que os outros não são diferentes de nós, mas compreendê-los e aceitá-los em sua diversidade”. 
Para finalizar, ele cita Zhao Tingyang, dizendo que “por mais que queiramos verdadeiramente chegar à harmonia entre os povos, a harmonia não significa uniformidade: Toda coisa perecerá caso se torne exatamente igual às outras [...]. A harmonia faz as coisas prosperarem, ao passo que a uniformidade as faz perecer”.
 

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