Israel: o país que venceu a sede

OPINIÃO - Maurício Waldman

Data 16/11/2018
Horário 04:30

Declaração de Jair Bolsonaro (PSL), presidente da República eleito, quanto à adoção de tecnologia israelense de dessalinização da água do mar, lançou holofotes sobre o espantoso avanço de Israel no “know-how” de utilização dos recursos hídricos que, reconhecidamente, não tem paralelo em todo o mundo. Fundado na esteira do movimento sionista, que prega o retorno dos judeus ao seu território de origem, as fronteiras de cessar fogo de 1949 de Israel circunscrevem uma área de meros 20.770 km². Ou seja: o país é menor que Sergipe, a menor das unidades da federação brasileira.

Ainda assim, mais de 50% desta área é desértica e as demais regiões, são gravadas por baixíssima pluviosidade ou carência de água. Em 71% de Israel chove menos que 700 mm/ano e em apenas 1,5% do território a precipitação alcança mil mm (índice, aliás, basilar no oeste paulista). Tão só 2% da área são formadas por massas líquidas. Ou seja, praticamente nada. Na comparação, o semiárido nordestino, cujos limites são delimitados pela isoieta 800 mm, é uma região bem menos seca do que apregoa o imaginário brasileiro e que para simplificar, está muito longe de ser um deserto.

Anote-se que nos anos 1970, quando a agricultura irrigada israelense conquistou a mídia mundial com os magníficos sucessos das suas colheitas (a propósito, o país é exportador de alimentos), o geógrafo pernambucano Manuel Correia de Andrade sublinhava que em Cabaceiras, na Paraíba, o município mais seco do Brasil, chovia 259 mm por ano, dez vezes a média de chuvas da maior parte de Israel. Isto é: se este índice fosse israelense, por lá, todos estariam soltando caramuru a rodo para comemorar chuvas tão abundantes.

Confira-se declaração do primeiro-ministro israelense David Ben Gurion, em 1969, durante tour pela américa latina. Na escala brasileira, consta que inquirido pelo presidente Costa e Silva a respeito de um presente do Brasil para o Estado de Israel, o visitante respondeu sem pestanejar: “Por favor, nos presenteie com um rio, qualquer um, pode ser um destes que eu vi pelo caminho”. Obviamente, na impossibilidade de receber rios de presente, Israel adotou padrões de altíssima eficiência na gestão dos recursos hídricos, um prestigiado “know-how” no mercado global de tecnologias de aproveitamento da água. Recorde-se métrica do hidrogeólogo cearense Aldo da Cunha Rebouças, pela qual Israel pratica irrigação em territórios onde a pluviometria é apenas 200 mm/ano, obtendo ganhos agrícolas somente equiparáveis em países com chuvas três ou quatro vezes mais intensas.

Em 2015, os programas de dessalinização de Israel forneciam 40% da água potável e espera-se que forneçam 70% até 2050. Desde 2015, mais de 50% da água para as cidades, agricultura e indústria são produzidas artificialmente. Tel Aviv reutiliza 98% da água que consome, recorde internacional. Contudo, nenhuma destas conquistas caiu do céu. Israel investiu duro na educação e em tecnologia, e o fez com rara maestria.  Suas tecnologias de ponta em software e comunicações são comparáveis ao Vale do Silício. Israel ocupa o 1º lugar no mundo em gastos com pesquisa em porcentagem do PIB (Produto Interno Bruto) e também é destaque global em proporção de cientistas em atividade.

Israel é laureado, em média, com um Prêmio Nobel a cada ano e meio, sendo classificado como uma nação com maiores taxas de artigos científicos per capita do Planeta. As universidades do país classificam-se entre as 50 melhores universidades do mundo em computação (Technion e Universidade de Tel Aviv), matemática (Universidade Hebraica de Jerusalém) e química (Instituto Weizmann). Daí que a proficiência israelense em gestão das águas, que naturalmente é bem-vinda, não pode ser colocada em ação no Brasil sem mais nem menos. Tecnologia não se transfere com a facilidade de comprar um quilo de feijão na quitanda. Assim, coloca-se novamente o desafio nacional de investir, com determinação e coragem, na formação de quadros técnicos e científicos, habilitados a absorver o que este notável país desenvolve na gestão das águas.

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