Estamos atravessando, nesse mês de janeiro de 2045, em todo o Sul e Sudeste do país, a mais uma nevasca nesse, ainda assim nomeado, “verão” brasileiro, sim, com muitas aspas, haja vista a natureza discrepante entre a antiga nomenclatura e a nova realidade. Faz frio, muito frio, nesse janeiro, em processo que se iniciará duas décadas atrás, em 2025, primeiro momento em que o verão deixou de ser quente, como sempre fora. Paulatinamente, nos acostumamos com repetidas chegadas de massas de ar polar, que se tornaram corriqueiras, mesmo no verão.
A sociedade, temerária e assombrada, adaptava-se, porém, aos novos tempos e ao novo clima, dada sua plasticidade característica. Os mais velhos ainda podiam se lembrar do calor, das tardes ensolaradas, do sol forte e das idas à praia. Às crianças, contudo, não podiam se lembrar daquilo que não puderam viver, aqui no hemisfério sul, tomado pelo frio polar. Eram felizes com seus casacos pesados, suas botas de inverno e seus bonecos de neve. A solidariedade, antes rara, tornara-se a regra.
O problema maior, esse sim, não observa-se na própria natureza, essa acostumada ao dinamismo ontológico que a caracteriza. O problema estava na perda do domínio da natureza pelo ser humano, que agora, nessa nova realidade, tornava-se incapaz de saber o momento certo de plantar e colher, momento que, na prática, não existia mais. O antes celeiro do mundo viu sua área agriculturável reduzida. Os cereais, frutas e leguminosas agora estão escassos nessa nova era glacial. O sonho vão de controlar natureza tornara-se pesadelo da fome e da falta de tudo.
Naturalmente que, nesse cenário, os conflitos entre as nações, antes corriqueiros, tornaram-se, agora, cotidianos, diariamente observáveis. O Norte Global, antes senhor do mundo, agora ajoelha-se aos pés da África, em parte convertida em salvação da fome e do frio, pelas suas áreas quentes e ainda agriculturáveis. Voluntariamente, apesar de tudo, o continente continuava a receber de braços abertos àqueles que outrora os exploraram, destruíram e desprezaram. Mesmo caminho buscaram os norte-americanos, que converteram o México em novo destino aprazível por conservar áreas livres do frio intenso, ao sul, assim como a América Central, o Norte e o Centro Oeste brasileiro.
Na Ásia o mesmo se dera, enquanto a Rússia deixou de existir ao ser enterrada embaixo do gelo polar, partes da China tornaram-se desabitas, enquanto que a Índia, ainda quente, passou a ter população três vezes maior diante dos milhões de refugiados climáticos que continua a receber todos os anos. Mas é o Brasil, o conclamado país do futuro, que conservou, assim como a África, as áreas mais quentes e habitáveis do planeta. O antes exótico destino turístico e palco de lucro fácil para as multinacionais, tornara-se, desde então, o lar multicultural de milhões de refugiados climáticos de todo o mundo.
Está frio lá fora e aqui em Palmas, no planalto central, experimenta-se temperatura amena para esse janeiro de 2045, com temperatura média na casa dos 18ºC durante o dia e 5ºC durante a noite.