João, “nóis” e a Bruna

Persio Isaac

CRÔNICA - Persio Isaac

Data 16/06/2021
Horário 06:00

Conheci o ator João Signorelli quando cursava a Faculdade de Psicologia em São Paulo. João fazia Faculdade de Comunicação. Ele montou um curso para a formação de atores universitários. Eu e o Niltão (in memoriam) nos inscrevemos. Meus dois grandes sonhos eram ser baterista e jogador de futebol. A arte sempre me atraiu e ter o amigo João como diretor era um privilégio, minha primeira experiência como um ator universitário. 
Vivíamos um regime de exceção no Brasil e o tema da peça era nessa linha. Fizemos o teste e passamos. Ganhamos o papel de dois guardas linha dura. Quem sabe estaria nascendo dois atores da dramaturgia brasileira.  Entrávamos numa única cena, com a farda verde oliva, com o cassetete batendo na palma da mão com cara de poucos amigos dizendo: Circulando, circulando. Era nossa única fala. Que emoção!
Um dia João marca um ensaio no domingo. Cheguei nele de mansinho e disse ao pé de ouvido: João, domingo tem jogo do Corinthians. Ele é um corintiano fanático. Rapaz, de cara ele me deu uma tremenda dura: Você quer ser ator ou torcedor? O caminho das artes é espinhoso. Que vergonha, me senti culpado do meu sentimento ao Todo Poderoso Timão. Vou para o sacrifício então. O ensaio de domingo estava marcado para as 14h. Deu 15h e nada do João aparecer. Deu 16h e cadê o João? O pessoal já estava querendo sair em passeata para protestar. Cadê o diretor? João estava vibrando com o gol do Todo Poderoso no Morumbi contra o São Paulo. É “nóis”. 
Outra passagem engraçada e dramática que tivemos foi quando o João nos convidou para jogar uma pelada no sítio do ator Carlos Alberto Riccelli, que já estava casado com a belíssima Bruna Lombardi. O sítio era em Embu. Ficamos todos empolgados. O time estava pronto com: Lê o Garrote (in memoriam), José Roberto Marcondes, Ricardo Cabeção, Tocá, Diorla e o Niltão. Rapaz, vamos ver a Bruna de perto. Calma rapaziada não vão me fazer passar vergonha. Tranquilo João. Ninguém dormiu esperando o sábado mágico. 
Quando chegamos, o educadíssimo e atencioso Riccelli nos recebeu com muito carinho. Quando a Bruna apareceu, sem maquiagem, me vi diante de Helena de Tróia, pedi aos deuses para me transformar no Príncipe Páris e preparar a segunda Guerra de Tróia. A deusa da beleza cumprimentou o Tocá que ficou gago, o Niltão ficou congelado, Zé Roberto e o Lê sentiram que iriam virar lobisomem, Diorla fez um pacto com o diabo e o Ricardo Cabeção virou foca. 
Depois desse sopro de felicidade, descemos até o campinho de terra que ficava abaixo da sede. Começa o jogo. Toda vez que a Bruna aparecia para apreciar o jogo, "nóis" num passe de mágica, transformávamos em super craques. Parecia que estávamos disputando uma final de Copa do Mundo O Carlos Alberto Riccelli estava no gol, a Bruna olhando o jogo, a bola foi lançada na ponta direita e o Diorla numa velocidade do super herói, The Flash, chegou uma semana antes que o lateral adversário. O Riccelli sai do gol com os braços esticados, Bruna olhando, a bola pingando e a tragédia acontece. O Diorla ao invés de dar um tapa na bola, com a elegância de um craque, dá uma cacetada sem piedade, a bola vem como uma carreta desgovernada e pega em cheio no peito do Riccelli, que cai estatelado no chão de braços abertos, com a marca da bola no seu peito feito uma tatuagem. Desmaiou. A Bruna viu aquela cena e apavorada gritou: Mataram meu marido. Puta vexame. Nunca mais nos convidaram. Desculpe João. Vejam vocês.
 

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