Livro perdido, ideal esquecido e a nova Inconfidência 

Aldir Guedes Soriano

CRÔNICA - Aldir Guedes Soriano

Data 16/05/2026
Horário 06:00

Em 1890, imediatamente após o golpe republicano, o Dia de Tiradentes, 21 de abril, foi consagrado como feriado nacional. Desde os bancos escolares, tive dificuldade na compreensão dos eventos relacionados à Inconfidência Mineira de 1789. A propósito, por que esse dia é comemorado nos dias de hoje e qual é o seu real significado? Eventos históricos são ambíguos, mas o que se pode extrair de bom? Em busca de respostas, examinei amarelados e empoeirados livros de história. Também vasculhei as minhas memórias.
Voltando no tempo, lembrei-me das minhas raras, porém, incomuns andanças por Minas Gerais, nos idos de 2002. Em Belo Horizonte, visitei o professor Alfredo Baracho, presenteando-o com um exemplar do meu livro ainda recém-publicado: “Liberdade religiosa no direito constitucional e internacional”. O encontro com o professor foi finalizado com uma recomendação. 
“Leve um exemplar do seu livro ao escritor Celso Brant,” recomendou o experiente professor. Quem sou eu para desobedecer ao conselho de um mineiro, atinei com meus botões. Imediatamente, tomei um táxi e me dirigi ao endereço informado. Logo me deparei, por instantes, admirando o alto edifício no qual encontraria Brant. Foi um breve, porém marcante encontro. Conversamos um bocadinho sobre liberdade, Uai. Após beber xícaras do bom café mineiro, entreguei o meu livro e saí com um exemplar da obra “A nova Inconfidência”, autografado pelo autor.  
De volta à minha rotina, em Presidente Venceslau, encontrei um amigo a caminho do meu escritório de advocacia. Mostrei-lhe o livro que ganhara e atendi ao seu pedido de empréstimo, embora ainda não o tivesse lido. Mesmo clamando pela devolução, não fui restituído. Perdi o livro, mas não o amigo nem o ideal de liberdade, que carrego na alma. Recentemente, encontrei um exemplar do livro perdido em um sebo on-line. Já fiz a encomenda, espero recebê-lo em breve. Não será o mesmo livro autografado por Celso Brant, mas, em breve, poderei refletir sobre as mensagens deixadas por este entusiasmado escritor. O que ele queria dizer com a nova Inconfidência? 
Há semelhanças nos eventos de independência do Brasil e das Colônias Americanas. É sensível, por exemplo, o paralelismo entre a insurgência mineira e a festa do chá em Boston. Havia excessiva cobrança de impostos gerados a partir da extração de ouro das minas brasileiras e da produção de chá das colônias americanas. Assim, minavam sentimentos de revolta nos territórios explorados por Portugal e Grã-Bretanha. 
No eixo luso-brasileiro, o poeta Tomás Antônio Gonzaga contribuiu com as satíricas Cartas Chilenas. Gonzaga inaugurou a chamada escrita esotérica na qual as críticas estão escondidas nas entrelinhas. Nos EUA, Thomas Paine publicou, em 1776, o Common Sense (Senso Comum). O panfleto tinha o objetivo de persuadir os colonos americanos acerca da necessidade de independência. Ambos os trabalhos tiveram inspiração no pensamento iluminista e, inicialmente, circularam anonimamente. Paine utilizava linguagem direta e objetiva enquanto Gonzaga era poético, mordaz e irônico. Os dois Tomases, contudo, denunciavam a tirania, a excessiva cobrança de impostos. Criticavam o abuso de poder das metrópoles.  
Assim, é importante refletir sobre a nossa história e os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade. Que a igualdade não seja pretexto para a eliminação da liberdade. Pode parecer devaneio quixotesco, mas, em tempos sombrios de abusos de poder e erosão das liberdades fundamentais, o ideal humano é combustível para a resiliência. Com essa motivação, Frankl sobreviveu ao campo de concentração nazista. Sejamos confidentes com as nossas consciências e inconfidentes diante das corruptoras tiranias. Que o brado de independência de Dom Pedro I, às margens do Ipiranga (1822), possa nortear o destino da nação. Talvez isso tenha alguma coisa a ver com a nova inconfidência proposta por Celso Brant. Sem ideais o mundo naufraga no oceano da opressão e da mediocridade. 
    
 

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