O primeiro encontro com o mar quase nunca acontece pelos olhos. Acontece pelo nariz. Antes mesmo que o horizonte azul se revele, chega a maresia, esse perfume impossível de engarrafar por completo. Ela não se trata apenas do cheiro de sal. Nos ensina os químicos que sua fragrância nasce do trabalho silencioso dos fitoplânctons, que liberam uma molécula chamada sulfeto de dimetila. Misturada ao iodo, aos minerais e ao sal suspensos no ar, é esse sulfeto que produz um aroma que atravessa quilômetros de distância, devolvendo ao organismo uma serenidade quase esquecida.
Deve ser por isso que o mar nunca exige grandes gestos. Não é preciso atravessá-lo nem desafiá-lo em embarcações heroicas. Há quem mergulhe, quem surfe ou reme sobre suas águas. Outros apenas caminham lentamente pela areia, observam o desenho das ondas ou permanecem sentados diante do horizonte. Afinal, bastam apenas alguns minutos escutando o vaivém das marés para que o excesso de estímulos artificiais perca força e a mente encontre um raro descanso restaurador. E, assim, a respiração muda de ritmo, o cérebro reconhece aquele perfume como uma antiga morada. Seria o oceano lembrando o cérebro do ritmo anterior aos relógios, às telas e às notificações?
É bom que se diga que ciência mostra que todos esses sentimentos e sensações não se trata apenas de nostalgia. O biólogo marinho Wallace J. Nichols chamou esse estado de Blue Mind, a mente azul: um modo de funcionamento em que a água — ou até mesmo sua simples lembrança sensorial a partir da qual o cérebro deixa de sobreviver para voltar a contemplar. Para isso, o cortisol e a adrenalina, hormônios do estresse, começam a diminuir. Ao mesmo tempo, a proximidade com a água altera a química cerebral, regulando a serotonina e dopamina, mensageiros que regulam funções orgânicas. Assim, os circuitos ligados ao prazer, à criatividade e ao foco recuperam espaço. Não é incrível?
É curioso pensar que, mesmo longe da costa, tentamos reconstruir essa experiência. Difusores espalham aromas marinhos pelas casas. Perfumes misturam notas salgadas, minerais e um discreto toque de ozônio para imitar a maresia. Nenhuma essência, porém, consegue reproduzir completamente a alquimia invisível do vento que sopra sobre as ondas, transformando o cheiro do mar mais do que uma combinação de moléculas, mas uma espécie de linguagem química escrita pela própria Terra para recordar ao ser humano sua origem aquática. Pois é, toda vez que respiramos a maresia, não estamos apenas sentindo o oceano. Estamos, silenciosamente, voltando para casa.