Milton Gonçalves

Sandro Villar

O Espadachim, um cronista sul-americano

CRÔNICA - Sandro Villar

Data 02/06/2022
Horário 05:30

Quando era menino, o Milton Gonçalves foi conhecer um clube social grã-fino, em São Paulo. Ele morava na capital paulista com a família, que veio de Minas Gerais. O porteiro do clube, que era negro, disse ao garoto que ele não poderia ficar no local, onde se reuniam adultos e suas famílias, como é óbvio. Os sócios, enfim.
Em sua inocência de criança, Milton pensou que ele não tinha idade para estar naquele clube, de acordo com a história contada pelo ator e comediante Benvindo Sequeira, que dá show no YouTube com seus ótimos comentários bem-humorados. 
Quando completasse 18 anos, aí sim, poderia voltar e entrar no clube, ser sócio e assim por diante. Pois foi o que o Milton Gonçalves fez já maior de idade. Se vestiu adequadamente e foi ao clube. O mesmo porteiro o recebeu e, digamos, lhe abriu os olhos.
Milton foi barrado. O porteiro ponderou e lhe disse mais ou menos o seguinte: "Isso aqui não é lugar para você. Será que você não entende?" Era um clube de brancos endinheirados, gente cheia da grana, gente que nada em dinheiro e não se afoga. Ao que se saiba, o clube nunca aceitou sócios negros.
Milton sentiu na pele essa desgraça chamada racismo, uma chaga social que parece não ter cura. Inconformado e melancólico, ele deixou o clube e entrou em um bar e bebeu muito. Encheu a cara. Bebeu até às cinco da matina, de acordo com o relato do Benvindo.
Dizer que Milton Gonçalves foi um grande artista, como ator e diretor, é chover no seco mesmo. Claro que foi. Ele é um dos tesouros da cultura brasileira e certamente não receberá nenhuma homenagem do governo federal por causa de suas posições políticas.
Milton tinha lado, o lado do bem. Deu a cara para bater e não foram poucas vezes. Arriscou o pescoço com sua arte, ora engajada, ora divertida. Ele sabia das coisas e, por falar nisso, "só quem não sabe das coisas é um homem capaz de rir", segundo o dramaturgo Bertold Brecht, numa alusão à alienação.
Era um ator internacional. Trabalhou com William Hurt no filme "O Beijo da Mulher Aranha", de Hector Babenco, diretor argentino que amava o Brasil.
Todos sabem: ele participou de mais de 40 novelas, entre elas "Irmãos Coragem" e "O Bem-Amado", pelo menos 70 filmes e muitas peças de teatro.
Se destacou na peça "Eles Não Usam Black Tie", de Gianfrancesco Guarnieri. A peça ficou em cartaz mais de um ano em São Paulo. Depois, foi levada para o cinema. Rendeu um belo filme dirigido por Leon Hirszman. "Eles Não Usam Black Tie" conta a história de uma greve de operários em São Paulo.
Milton interpreta um sindicalista morto por agentes da repressão da ditadura militar. O elenco é encabeçado por Fernanda Montenegro, Carlos Alberto Riccelli, Bete Mendes, Gianfrancesco Guarnieri, Francisco Milani e, claro, Milton Gonçalves. Não é exagero incluir esse filme na lista dos 20 melhores filmes  brasileiros de todos os tempos. Cinema sério, bom demais.
Milton Gonçalves fará falta. Ele deixou sua marca no mundo. Entre as dezenas de novelas, em nenhuma foi o ator principal. Baita injustiça. Ato falho da Globo, que tem denunciado o racismo em suas produções e, principalmente, nos telejornais. Homenagem justa é aquela feita ainda em vida. Depois, para lembrar Nelson Cavaquinho, "quero preces e nada mais".

DROPS

Se você bebe para esquecer, pague antes de beber.
(ditado antigo, quando o Mar Morto ainda era vivo)

Fiado só depois de amanhã.
(pode afixar no seu bar)

Casamento: o que Deus uniu a pança não separe.

Perguntinha inocente: quem tem fome de justiça um dia será saciado?
 
 

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