Na agropecuária, Covid-19 castiga quem trabalha com itens perecíveis

Laticínios e hortifrutigranjeiros são os setores mais afetados, visto que são produtos que precisam rapidamente de escoamento e consumo; já as perdas dos pecuaristas serão menores, expõe sindicato

PRUDENTE - MARCO VINICIUS ROPELLI

Data 17/04/2020
Horário 04:02
Cedida - Produção de leite dá origem a derivados como queijo, requeijão e iogurte
Cedida - Produção de leite dá origem a derivados como queijo, requeijão e iogurte

O produtor rural, que trabalha com olericultura (cultivo de legumes), Everton Eiji Tuguimoto, 33 anos, está preocupado com a duração da pandemia do Covid-19 e a consequente suspensão de atividades de alguns comércios. Isso porque, segundo ele, cada vez mais o giro do comércio irá diminuir, já que as pessoas preferem se isolar em casa e, portanto, consomem menos. Ele acredita que esta questão, em breve, será responsável pela diminuição da demanda de seus produtos.

O presidente do Sindicato Rural de Presidente Prudente, Carlos Alberto Biancardi, concorda com Everton, visto que, segundo ele, os produtores rurais que mais sofrerão os impactos do novo coronavírus são aqueles que trabalham com produtos perecíveis, como leite e seus derivados e o hortifrutigranjeiro. “Há dificuldade de comercialização, já que os bares e restaurantes, grandes consumidores destes produtos, estão fechados ou com movimento diminuído pelo delivery, e os mercados estão mais vazios”, pontua.

Outra vertente do setor agropecuário é a criação de animais, a exemplo do gado bovino, predominante na região. As perdas dos pecuaristas, Biancardi acredita, serão menores. “Há o problema em relação aos frigoríficos, que fizeram manobras para diminuir o preço da arroba do boi. Eles alegam dificuldades de exportar o produto, mas tem-se notícias de que a China [maior compradora de carne da região] já retomou a importação, pode ser que ainda haja dificuldade de logística. De qualquer forma, o pecuarista que pode reter o rebanho está retendo, esperando melhores condições para negociar”, enfatiza.

O terceiro grupo apontado pelo presidente do sindicato são as atividades de grande extensão, como as lavouras de soja ou milho, que, segundo ele, serão as que menos serão impactadas, já que são sazonais, e não há como interromper a produção no meio de etapas. “Não há grandes preocupações com o escoamento. Pode haver alguma dificuldade, tendo em vista que é uma cadeia, tudo depende de cada parte, como o transporte, consumo... Só vamos ter certeza quando a produção estiver pronta para ir ao mercado”, salienta.

Apesar das impressões já notáveis, Biancardi afirma que o sindicato ainda não possui números oficiais sobre a questão do Covid-19. Em relação às recomendações para que os produtores sofram menos os impactos do momento caótico, o presidente orienta, com foco nos produtores de perecíveis, que busquem alternativas de escoamento, como sistemas delivery, com embalagens que transmitam segurança. “Há necessidade de os produtores estarem atualizados, criarem novas soluções, ligados às novas tecnologias”, pontua.

MODELO IMPEDE

GRANDES IMPACTOS

O casal de produtores rurais Rosilene Pereira das Chagas Batista e Alexandre Nunes Batista, ambos de 44 anos, trabalham no bairro rural Belo Galindo, em Prudente, com produção de leite, derivados como queijos, requeijão, iogurte, outros produtos de origem animal como ovos caipiras e, ocasionalmente, carne de aves. De origem vegetal, produzem frutas como mamão, banana e abacate, além de algumas verduras e legumes.

Eles chamam os clientes fixos que possuem de coprodutores, já que são eles quem sustentam e financiam as atividades. “Chama-se CSA [Comunidade que Sustenta a Agricultura]. Os consumidores pagam de forma antecipada mensalmente, e nós os abastecemos com nossos produtos”, explica Alexandre. Rosilene afirma que o fato da maioria dos coprodutores serem famílias faz com que os impactos relacionados ao comércio não os atinja.

“A demanda tem até aumentado pelo nosso serviço de entregar na residência, mas damos prioridade aos nossos clientes fixos, e só o que sobra oferecemos aos demais consumidores”, destaca a produtora.

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