Sentei-me no banco da praça já quase no fim da tarde. Como é gostoso olhar para aquelas crianças brincando na areia do campinho de futebol. Lá no fundo havia também um pequeno grupo de meninas, que deviam estar contando as suas aventuras do dia na escola. As explicações da professora. As trocas rápidas de olhares delas com as paquerinhas... tudo muito divertido.
Para quem mora por ali ela sempre foi a praça das crianças, dos cachorros correndo soltos, das conversas demoradas nas noites de verão. Em frente estava a casa azul — a mesma que um dia imaginamos, desenhamos em conversas distraídas, como se o futuro fosse algo simples de construir com tinta, janelas abertas e algumas promessas captadas pelo traço do arquiteto-artista.
Você ainda estava no trabalho e a casa azul vazia, silenciosa, quase sonolenta. O vento passava devagar pelas árvores que plantamos ao redor das janelas e fazia as folhas se mexerem como se estivessem cochichando entre si. Olhei para as janelas fechadas e tentei lembrar das nossas histórias. A memória não costuma dar datas precisas — ela prefere trabalhar com sensações. Foi então que, deixando-me levar pela imaginação, umas frases apareceram dentro da cabeça, como se alguém estivesse cantando muito baixo: “Hoje eu preciso te encontrar de qualquer jeito… E aonde quer que eu vá, levo você no olhar”. Olhei em volta da casa vazia e sorri de leve.
A música sempre tem esse costume estranho de aparecer quando a gente menos espera. Talvez tivesse escapado de algum rádio distante, talvez fosse apenas lembranças que insistem em voltar. Outra frase veio logo depois, como um eco: “Hoje eu preciso tomar um café, ouvindo você suspirar…” Fechei os olhos por um instante. Quase consegui ver a cena: duas xícaras sobre a mesa da cozinha, a janela aberta, a luz da manhã entrando preguiçosa.
Quando abri os olhos novamente, a noite tomava conta da praça, agora muito quieta. De fato, alguns lugares guardam histórias como se fossem caixas silenciosas. A praça, os bancos, as árvores — tudo parecia saber de coisas que o tempo não consegue apagar completamente. E as frases soltas ficaram ressoando como se alguém tivesse dito aquilo bem perto do meu ouvido. Acho que elas tinham algo em comum. Todas falavam da mesma coisa: encontrar alguém, tomar um café juntos, ouvir uma voz conhecida, reduzir um pouco a distância entre duas pessoas. Pois é, tudo o que a gente precisa é apenas chegar em casa. E eu estava diante da casa azul, querendo te beijar de um jeito que te faça rir.