Os animais de estimação que existiram na minha casa fazem parte da memória afetiva com as crianças que viviam ao nosso redor. Elas sempre tinham um bom motivo para a adoção de cães, gatos, periquitos, peixes ornamentais, tartarugas etc. Lembro-me, especialmente, do Fumaça - simpático vira lata que morreu tragicamente atropelado em frente de casa; e do Bimbo, um pastor alemão que caçava habilmente qualquer gato ou passarinho que se aventurasse pelo quintal de casa.
Havia também os cachorros comunitários do curso de geografia da Unesp, como o famoso Siri. Ele arranhava a porta da sala até eu abrir para que pudesse participar das aulas teóricas, observadas com muita atenção. São incríveis esses cachorros que não tem dono - e, por isso mesmo, pertencem a todos. O Siri dormia um dia na Moradia Estudantil, no outro debaixo do banco da praça em frente ao bloco de sala de aulas. Era comunitário no sentido mais bonito da palavra: pertencia ao território porque o território o reconhecia. Havia nele uma espécie de sabedoria silenciosa, dessas que só os animais — ou os velhos muito atentos — parecem cultivar.
Todas estas histórias me vieram à mente com a repercussão na imprensa da morte trágica do Orelha, o cão comunitário que vivia na chamada Praia Brava, localizada em Florianópolis, Santa Catarina. Orelha sabia os horários. Sabia quando as crianças saíam da escola e quando os pescadores voltavam do mar. Sabia quem estava triste e se aproximava devagar, encostando o corpo como quem diz: “estou aqui”. Não latia por latir. Observava. Naquela praia, Orelha era mais do que um cachorro: era um elo. Sua presença lembrava que comunidade é cuidado compartilhado.
Orelha foi brutalmente agredido por adolescentes no início deste ano. Ele foi encontrado com graves ferimentos, principalmente na cabeça, levado ao veterinário, mas não resistiu e precisou ser submetido à eutanásia. Sua morte atravessou a praia como um vento frio fora de estação. Não foi apenas a perda de um cão. Foi a quebra de um pacto invisível entre vizinhos, entre humanos e aquilo que ainda nos resta de ternura. O caso gerou indignação e manifestações em diversas cidades brasileiras. Sua ausência escancara que também a violência pode ser coletiva — quando silenciamos, quando relativizamos, quando tratamos como “caso isolado” aquilo que revela algo. Na Praia Brava, o banco da praça continua vazio ao entardecer. E o vento, quando passa, parece perguntar baixinho: que tipo de comunidade queremos ser?